Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

As palavras, Eugénio de Andrade 07/07/2005

Filed under: poesia — jacky @ 10:50 pm

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

As palavras cristalinas nem sempre são tranaparentes, mas entram no entendimento de todos. Emanam energia de mil cores.
As palavras-punhal ferem de mansinho ou esfaqueiam-nos barbaramente. Produzem cortes que logo se curam ou que nunca mais voltarão a cicatrizar.
As palavras incendiárias invadem-nos abruptamente, deixando-nos sem defesa. Por vezes, criam desejos e fantasias que se poderão sublimar ou talvez não.
As palavras orvalho aparecem pela manhã, leves e refrescantes, líquidas e macias. Alimentam-nos as flores da alma.
As palavras secretas habitam em nós em locais inacessíveis, repletas de teias de aranhas. Às vezes, moram em baús e ficam como palavras-memória.
As palavras inseguras saem tremidas porque sem certezas. Por vezes, mais verdadeiras que as seguras, mas ninguém as ouve.
As palavras-barcos fazem-nos navegar em livros-oceanos. As palavras-beijos acarinham-nos e confortam-nos.
Quando são luz, preenchem-nos de conhecimento e quando são noite, são pensamentos estrelados, salpicados na escuridão.
Verdes paraísos de palavras são oasis em desertos afectivos e há as palavras crueis que desfazem mesmo as conchas mais puras.

As palavras de amorizade vão permanecer caladas por uns tempos porque nem sempre o pensado e sentido deve ser verbalizado. Fiquem bem.
(Entretanto, podem entreter-se a fazer testes, participar nos jogos de palavras e exercícios de escrita, completar a feitura dos alfabetos e/ou criar uns haikus. Também podem ler os arquivos, se tiverem pachorra, é só clicar nos links do índice, aqui na coluna da direita)

 

Eugénio de Andrade 14/06/2005

Filed under: poesia — jacky @ 11:56 pm


Cloak of stars, by Amy Brown

A minha homenagem a um amante das palavras…

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

 

Nasce Selvagem, Delfins 06/05/2005

Filed under: poesia — jacky @ 6:44 pm

Mais do que a um país
que a uma família
ou geração

Mais do que a um passado
Que a uma história
ou tradição

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
que a uma rotina
ou profissão

Mais do que a um partido
que a uma equipa
ou religião

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
de ninguém

Utopicamente verdade…

 

A maior solidão, Vinicius de Moraes 16/03/2005

Filed under: poesia — jacky @ 1:34 pm


Ansel Adams

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

 

Le cancre, Jacques Prévert 07/03/2005

Filed under: poesia — jacky @ 11:23 am

Il dit non avec la tête
Mais il dit oui avec le cœur
Il dit oui à ce qu’il aime
Il dit non au professeur
Il est debout
On le questionne
Et tous les problèmes sont posés
Soudain le fou rire le prend
Et il efface tout
Les chiffres et mes mots
Les dates et les noms
Les phrases et les pièges
Et malgré les menaces du maître
Sous les huées des enfants prodiges
Avec des craies de toutes les couleurs
Sur le tableau noir du malheur
Il dessine le visage du bonheur

Versão portuguesa de moi, feita à pressa e sem dicionário, a seguir:
(more…)

 

As Mãos, Manuel Alegre 28/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 10:11 am


Feinstein

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

As mãos são, sem dúvida, muito importantes nas nossas tarefas diárias e em tudo o mais. Que gostas de fazer com as tuas mãos? Tens algum talento especial?

 

Liberdade, Fernando Pessoa 20/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 9:09 pm


Catherine Wood

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…