Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Como eu imagino os heterónimos de Pessoa perante uma pedra! 11/02/2015

Filed under: poesia — jacky @ 10:10 pm
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Como eu imagino os heterónimos de Fernando Pessoa perante uma pedra:

Alberto Caeiro: Esta pedra é cinzento como o ceú em dias de tempestade. Estou a fruir a pedra tal como é no momento presente.

Ricardo Reis: A beleza desta pedra é comparável a um poema de Virgílio, em local ameno, num dia perfeito de Primavera. Carpe diem, pedra! Mas devagarinho, sem prazeres excessivos, porque vamos todos morrer e o melhor é ficarmos parados.

Álvaro de Campos( 2º fase: futurista): Adoro esta pedra! Pedras, pedras, pedras! Vou atirar pedras! Bing! Bing! Boing! Ricochete etc e tal. Adoro as pedras do mundo inteiro, as rochas e os penedos e as montanhas. Eu quero abraçar as pedras todas do Universo até as da Lua! UUUUUUUuuuuhUUUUUUhhhhh Pedras! PEDRAS!!!! Peeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeedraaaaaaaaaaaaaaaaaaas!

 

Haikus em Inglês 21/04/2007

Filed under: poesia — jacky @ 9:05 am

Olha que boa ideia! Tenho que fazer uma coisa destas com os meus haikus!

Um bom fim de semana para ti!

 

Poetry 20/04/2007

Filed under: poesia — jacky @ 9:05 am

O wordpress está sempre a inovar! Agora podemos acrescentar no blogue apresentações em Power Point, tanto podem ser nossas como de outras pessoas. Gostei imenso desta sobre Poesia. Se gostas de escrever, podes tirar ideias daqui! (Já agora, merece um voto, não achas?)

 

Haiku 28/11/2006

Filed under: escrita,poesia — jacky @ 10:15 am

 

A ORIGEM

O haiku deriva duma forma anterior de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha 5 versos, de 5 e 7 sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte.

No século XV, os muitos concursos de poesia tanka deram origem a um jogo de escrita de longos poemas: a primeira estrofe, de 3 versos (com 5, 7 e 5 sílabas), era sugerida por um poeta e as restantes iam surgindo e associando-se, num jogo competitivo entre vários poetas. Este tipo de poesia era a renga, de temática clássica, e os primeiros três versos (os mais importantes, pois serviam de mote) designavam-se por hokku. No século XVI, tornou-se mais popular o haikai-renga, de temática humorística.

Rapidamente a estrofe inicial de 3 versos acabou por se tornar uma forma independente de poesia. Mas só no século XIX, o mestre Masaoka Shiki lhe atribuiu um nome: haiku (pela junção das palavras haikai e hokku).

A EVOLUÇÃO

Bashô Matsuo (1644–1694), considerado o primeiro e maior poeta japonês de haiku, nasceu samurai e adoptou a simplicidade tanto na vida como na criação poética.

Enriqueceu o haiku, superando a artificialidade de poetas anteriores e tornando-o artistica e socialmente aceite. A par de poemas de carácter lúdico, começou a valorizar o papel do pensamento no haiku, imprimindo-lhe o espírito do budismo zen.

Versátil, os seus poemas sugeriam os mais variados estados de espírito: humor, depressão, euforia, confusão,… permitindo uma consciência da grandiosidade da natureza ( física e humana ).

Este caminho

Ninguém já o percorre,

Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida

Chega? Não sei.

Mas é seu perfume.

Outros poetas do género se lhe seguiram: Buson Yosa (séc. XVIII), Shiki Masaoka (séc. XIX), Koi Nagata (séc. XX).

De salientar Shiki, crítico de Bashô por considerar que a sua poesia carecia de pureza e tinha demasiados elementos explicativos: o haiku deveria ser a partilha de um momento e não a sua explicação, privilegiando a descrição visual e o estilo conciso.

Nem Shiki nem os poetas contemporâneos afirmaram uma ligação ao zen, como Bashô, embora seja inegável que a essência desta filosofia continue presente em muitas composições haiku.

As características

“O haiku é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haiku capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado,

a natureza humana, a vida”. (A. C. Missias, biólogo e poeta americano)

Basicamente, o haiku define-se como uma forma poética que, quanto à forma, tem três versos curtos e, quanto ao conteúdo, expressa uma percepção da natureza.

Os três versos (sem rima) apresentam, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas métricas japonesas. A métrica japonesa assenta essencialmente no elemento duração: por exemplo, a palavra Bashô, metricamente tem três sílabas ou unidades de som, porque o /o/ final é longo.

São dois os elementos de conteúdo, em não mais do que duas frases: uma percepção sensorial (particular e imediata) e uma percepção sugestiva (de maior amplitude circunstancial ou semântica). A separação entre os dois elementos é feita por uma palavra ou sinal gráfico (kireji).

A percepção sensorial parte de um vocábulo associado a um elemento da natureza e, frequentemente, às estações do ano (Kigo) O kigo representa o aqui e agora que originou uma dada emoção/sugestão.

Não apresenta objectividade, mas a subjectividade expressa provém sempre de uma objectividade captada pelos sentidos. Uma sensação concreta – visual, auditiva, táctil – permite associações, sentimentos, memórias, o reconhecimento de um conjunto mais amplo em que essa sensação se encaixa.

O kaiku capta o instantâneo, regista, enquadra, presentifica, evoca, emociona… a ligação semântica entre as palavras expostas será sempre feita pelo leitor.

É, pois, uma forma de poesia breve, depurada, bela, simples e fluente. É uma reacção estética minimalista à crescente consciência humana do caos.

Exige uma atenção aos mais pequenos eventos da natureza objectiva e imediata; uma permanente atitude de espanto perante o fenómeno da natureza.

Pressupõe uma relação entre o particular e o geral, entre o mais individualmente percebido e o ritmo cósmico da natureza, entre a efemeridade da sensação e o eco que esta pode despertar na sensibilidade e na memória, promovendo uma união entre o sujeito e o objecto. De referir que, no Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem também é a natureza, por isso, o conceito de união remete para aquele momento específico em que o homem reconhece essa natureza a que ele também pertence.

O haiku foi absorvido por outras culturas e línguas, tendo ganho popularidade em diversas regiões do mundo durante o século XX, nomeadamente no Brasil, América, Canadá, França, Índia e alguns países dos Balcãs.

O haiku (frequentemente designado por haicai pelos poetas de expressão portuguesa) chegou ao Ocidente, quer pela via da imigração japonesa, quer pelo fascínio que o Oriente foi gradualmente exercendo sobre os ocidentais e que culminou, no caso da literatura portuguesa, no exotismo presente em textos simbolistas de final de século (Venceslau de Morais e Camilo Pessanha).

Venceslau de Moraes (1854-1929) cedo se sentiu fascinado pelo Japão, onde viveu largos anos, sendo a sua obra reflexo da cultura oriental. Traduziu diversos haiku japoneses, optando frequentemente pela quadra, por a considerar a única forma breve e popular que se equivale na tradição portuguesa. Mas, na opinião de alguns estudiosos, acabava por desvirtuar o espírito, e até o conteúdo, do original. Como exemplo, a tradução de Morais do famoso haiku de Bashô: “O velho tanque- / Uma rã mergulha, / barulho de água.”:

Um templo, um tanque musgoso;

Mudez, apenas cortada

Pelo ruído das rãs,

Saltando à água. Mais nada…

Já o poeta Herberto Helder (1930) , também tradutor de poesia de diversas culturas antigas, apresenta traduções mais aproximadas:


Primeira neve:

Bastante para vergar as folhas

Dos junquilhos.

Festa das flores.

Acompanhando a mãe,

Uma criança cega.

Monte de Higashi.

Como o corpo

Sob um lençol.

Ah, o passado.

O tempo onde se acumularam

Os dias lentos.


O haiku ocidental apresenta diferenças do tradicional japonês, principalmente no aspecto formal. Naturalmente, a especificidade da língua japonesa (o léxico, a sonoridade e o próprio conceito de sílaba métrica) inviabiliza qualquer reprodução fiel nas línguas ocidentais, surgindo mesmo distintas traduções para um mesmo poema. Dificilmente, a língua portuguesa e a inglesa, por exemplo, conseguem adoptar com rigor a métrica de 17 sílabas, distribuídas em versos de 5, 7 e 5 sílabas, sem perder a fluência, a leveza e a naturalidade que caracterizam o haiku japonês. Os haiku escritos ou traduzidos por ocidentais mantêm do original: a brevidade; a recorrência a vocábulos associados à natureza ou às estações do ano, a associação de percepções (sensoriais e emocionais) e a divisão da estrofe em três versos. A temática é mais abrangente.

A concisão da forma e, essencialmente, a percepção da natureza são elementos muito marcantes nalguns poetas contemporâneos, nomeadamente em Eugénio de Andrade e Albano Martins.

A poesia de Eugénio de Andrade ( 1923 ), poeta que nunca se integrou em qualquer movimento literário específico, caracteriza-se pelo valor dado à palavra, à imagem, à musicalidade, aproximando-o, entre outros, do simbolismo de Camilo Pessanha. Tende a rejeitar os dualismos da cultura ocidental, representando o Homem como um ser integrado numa realidade colectiva. Surge por vezes a analogia entre as idades do homem e as estações do ano e, através de descrições ou evocações físicas, tenta versar a plenitude da vida, a pluralidade dos instantes. São muitos os poemas breves ou de versos curtos, aparentemente simples, mas de grande profundidade:

Tocar um corpo

e o ar

e a língua de neve.

Tocar a erva

mortal e verde

de cinco noites

e o mar.

Um corpo nu.

E as praias fustigadas

pelo sol e o olhar.

As palavras, vício

torpe, antigo.

As últimas? As primeiras?

Como os ouriços

abrem-se ao rumor do mundo:

o sol ainda verde dos limões,

os esquilos

doutras tardes, o latido

da chuva nas janelas,

os velhos em redor do lume

– nunca foram tão belas.

Albano Martins (1930), actualmente professor universitário no Porto, tem-se distinguido particularmente no campo da poesia, do ensaio e da tradução. A sua obra poética caracteriza-se pelo encontro equilibrado entre a contenção (forma breve e linguagem depurada) e o poder imagético da palavra (suas inúmeras possibilidades associativas e metafóricas): “O ritmo / do universo/ cabe,/ inteiro,/ na pupila/ dum verso.” Em 1995, editou poesia haiku de sua autoria, sob o título “Com as flores do salgueiro – Homenagem a Bashô”. Aqui se transcrevem algumas composições:

Um pássaro

no ninho: uma gaiola

perfeita.

Crepúsculo. Gaivotas

em repouso velam

o cadáver do sol.

Uma concha bivalve:

borboleta do mar,

de asas fechadas.

Jogo de sedução

entre o vento e as folhas.

Prazer volátil.

Juncos em movimento.

Os cabelos da água

penteados pelo vento.

Borrão azul

na brancura da página:

o poema.

(informações retiradas daqui: haiku, poesia tradicional japonesa)

 

Palavras Mutantes, Encandescente 02/11/2006

Filed under: poesia — jacky @ 12:32 am

É com muito gosto que anuncio a publicação de mais um livro de poesia da Encandescente. Depois do vermelho e do verde, chegou o azul (que todos os Portistas não vão deixar de comprar 😆 e todos os que gostam do mar e do horizonte) Palavras Mutantes! Se quiseres comprar o livro, basta encomendar : Na FNAC , Pelo mail da editora , Pelo mail da Encandescente. Vais ver que vale a pena 🙂

 

O Bom Pastor, Vinicius de Moraes 04/10/2006

Filed under: poesia — jacky @ 5:43 pm

Norbert Rosing

Amo andar pelas tardes sem som, brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em vôo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma…

Amo andar nessas tardes…
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agitando
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma…

E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi…
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras…
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva…
E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar…

Rio de Janeiro, 1933

Vinicius de Moraes

 

Impressão Digital I 12/03/2006

Filed under: poesia — jacky @ 10:59 pm

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê Moinhos? São moinhos
Vê Gigantes? São gigantes.

António Gedeão

 

As palavras, Eugénio de Andrade 07/07/2005

Filed under: poesia — jacky @ 10:50 pm

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

As palavras cristalinas nem sempre são tranaparentes, mas entram no entendimento de todos. Emanam energia de mil cores.
As palavras-punhal ferem de mansinho ou esfaqueiam-nos barbaramente. Produzem cortes que logo se curam ou que nunca mais voltarão a cicatrizar.
As palavras incendiárias invadem-nos abruptamente, deixando-nos sem defesa. Por vezes, criam desejos e fantasias que se poderão sublimar ou talvez não.
As palavras orvalho aparecem pela manhã, leves e refrescantes, líquidas e macias. Alimentam-nos as flores da alma.
As palavras secretas habitam em nós em locais inacessíveis, repletas de teias de aranhas. Às vezes, moram em baús e ficam como palavras-memória.
As palavras inseguras saem tremidas porque sem certezas. Por vezes, mais verdadeiras que as seguras, mas ninguém as ouve.
As palavras-barcos fazem-nos navegar em livros-oceanos. As palavras-beijos acarinham-nos e confortam-nos.
Quando são luz, preenchem-nos de conhecimento e quando são noite, são pensamentos estrelados, salpicados na escuridão.
Verdes paraísos de palavras são oasis em desertos afectivos e há as palavras crueis que desfazem mesmo as conchas mais puras.

As palavras de amorizade vão permanecer caladas por uns tempos porque nem sempre o pensado e sentido deve ser verbalizado. Fiquem bem.
(Entretanto, podem entreter-se a fazer testes, participar nos jogos de palavras e exercícios de escrita, completar a feitura dos alfabetos e/ou criar uns haikus. Também podem ler os arquivos, se tiverem pachorra, é só clicar nos links do índice, aqui na coluna da direita)

 

Eugénio de Andrade 14/06/2005

Filed under: poesia — jacky @ 11:56 pm


Cloak of stars, by Amy Brown

A minha homenagem a um amante das palavras…

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

 

Nasce Selvagem, Delfins 06/05/2005

Filed under: poesia — jacky @ 6:44 pm

Mais do que a um país
que a uma família
ou geração

Mais do que a um passado
Que a uma história
ou tradição

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
que a uma rotina
ou profissão

Mais do que a um partido
que a uma equipa
ou religião

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
de ninguém

Utopicamente verdade…

 

A maior solidão, Vinicius de Moraes 16/03/2005

Filed under: poesia — jacky @ 1:34 pm


Ansel Adams

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

 

Le cancre, Jacques Prévert 07/03/2005

Filed under: poesia — jacky @ 11:23 am

Il dit non avec la tête
Mais il dit oui avec le cœur
Il dit oui à ce qu’il aime
Il dit non au professeur
Il est debout
On le questionne
Et tous les problèmes sont posés
Soudain le fou rire le prend
Et il efface tout
Les chiffres et mes mots
Les dates et les noms
Les phrases et les pièges
Et malgré les menaces du maître
Sous les huées des enfants prodiges
Avec des craies de toutes les couleurs
Sur le tableau noir du malheur
Il dessine le visage du bonheur

Versão portuguesa de moi, feita à pressa e sem dicionário, a seguir:
(more…)

 

As Mãos, Manuel Alegre 28/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 10:11 am


Feinstein

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

As mãos são, sem dúvida, muito importantes nas nossas tarefas diárias e em tudo o mais. Que gostas de fazer com as tuas mãos? Tens algum talento especial?

 

Liberdade, Fernando Pessoa 20/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 9:09 pm


Catherine Wood

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

 

recomendações 08/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 8:58 pm

Se gostas de poesia, vais espreitar estes blogues:

que são dos avós paternos do meu filhote 🙂

E quando é que crias o teu banner para ficar aqui neste blogue, na coluna da direita?

 

Lição sobre a água, António Gedeão 02/02/2005

Filed under: poesia — jacky @ 12:22 pm


Su Lee

Este líquido é água.
Quando pura
É inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
Sob tensão e alta temperatura,
Move os êmbolos das máquinas que por isso,
Se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções, mas de um modo geral,
Dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
E ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
Sob um luar gomoso e branco de camélia,
Apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
Com um nenúfar na mão.

 

Todo o tempo é de poesia, António Gedeão 31/01/2005

Filed under: poesia — jacky @ 10:24 am

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu’a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

Assim têm sido os meus dias entre caos e harmonia, arrumação e desarmonia…

 

Passa por mim uma borboleta, Alberto Caeiro 30/01/2005

Filed under: poesia — jacky @ 11:21 am


(Imagem de Anne Geddes)

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

 

Soneto da Rosa Tardia, Vinicius de Moraes 28/01/2005

Filed under: poesia — jacky @ 1:15 pm


J. A. Kraulis

Como uma jovem rosa, a minha amada…
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, por que não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa…

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta… assim se chama…
Sente bem seu perfume… Ela te ama…

Julho de 1963, Rio de Janeiro
in Livro de Sonetos, Vinicius de Moraes, Editora Companhia das Letras

 

As rosas, Ricardo Reis

Filed under: poesia — jacky @ 1:14 pm


Salvador Dali

As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.