Os meus alunos
(agora já nem tanto, mas também já foi assim, quando dei aulas no ensino oficial e num colégio particular)
* fazem-me a vida negra nos dois primeiros meses de aulas porque, como pareço ter a idade deles, julgam que podem abusar.
* medem forças comigo, sendo por vezes mal-educados e agressivos, até cederem ou eu ter de os pôr na rua.
* faltam muito, chego a ter 4 alunos durante duas horas.
* alguns drogam-se e, à tarde, é simplesmente insuportável aturá-los, mas em geral tenho a sorte de ter aulas de manhã quando estão mais calmos.
* estão-se a borrifar para as matérias que estou a ensinar, entra-lhes a 100 e sai a 500.
* passam as aulas agarrados aos telemóveis, a mandar mensagens e não ligam nenhuma ao que estou a dizer.
* recusam-se a ler alto, a escrever ou a fazer os trabalhos que lhes peço.
* nunca estão satisfeitos com nada e protestam seja qual for a actividade, mesmo se for um jogo.
* insultam-me fora da escola, depois de os ter apanhado a copiar e de lhes ter anulado o teste.
* atiram-me com os livros ao chão, quando os mando mudar de lugar porque estão a fazer barulho, e é porque não me podem atirar os livros à cara.
* escrevem-me em composições, nos testes de avaliação, que daqui a 10 anos, querem ter uma casa de alterne porque isso é que dá dinheiro.
* têm o meu nº de telemóvel e, quando acabam o ano, ficam de dar notícias e nunca mais dizem nada. Quando sou eu a mandar sms a perguntar se estão bem, a maioria nem sequer se dá ao trabalho de responder…
* fazem queixa de mim aos coordenadores de turma, porque ficam com inveja de eu não marcar falta aos que chegam atrasados.
* atiraram-me com papéis nas costas, quando estava a escrever no quadro.
* ameaçaram apresentar queixa contra mim porque, merecidamente, lhes dei uma nota baixa por incumprimento de trabalhos, mas não o admitem.
* criticam as minhas roupas, quando pensam que eu não estou a ouvir.
* chegam a detestar-me sem qualquer motivo e olham para mim como se me fossem dar uma tareia lá fora.
* julgam-me por todos os motivos e mais alguns, apenas porque não me encaixo nos seus padrões de beleza, riqueza ou status.
* pedem-me satisfações pelas notas que dou, comparando-se com os colegas e inclusive contando-me coisas que possam vir a prejudicar os colegas.
* pedem por tudo o que tenho na vida para ir a um passeio com eles de 3 dias, deixando o filhote com o pai, e depois agradecem-me portando-se como uns anormais até ao fim do ano.
* engraxam-me o ano inteiro e depois, quando acabam as aulas, passam por mim e fazem de conta que não me conhecem.
* passam por mim, bêbados na rua, ao fim de semana, e tentam agarrar-me.
* falam para mim com altivez como se eu fosse uma inútil porque não faço parte da sua classe social nem tenho um telemóvel topo de gama.
* não gostam de mim e fazem com que o sinta em todas as aulas e eu acabo por deprimir porque deixo de gostar deles e não sei ensinar bem se não criar laços afectivos com eles…
Não esquecer também que o meu trabalho é desprezado neste país porque não há instabilidade nem os professores têm poder para se impor nas aulas, senão levam logo com uns processos em cima (não é, Gotinha e cap?). Então, como tenho um filho que anda na escola e nao posso estar a desenraizá-lo todos os anos lectivos porque posso ficar a dar aulas no cu de Judas, desisti do ensino oficial e ensino em escolas de formação profissional.
No ensino profissional, também não há segurança porque se trabalha a recibo, paga-se a própria segurança social mesmo que as escolas se atrasem a pagar ou não se ganhe nada em algum mês, nunca se sabe bem ao certo se as escolas nos voltam a convidar para as turmas novas ou se terão turmas novas porque parece que a formação profissional vai acabar,mas pelo menos estou perto de casa.
Os meus pais invariavelmente dizem-me que sou teimosa em continuar a ensinar neste país, que é capricho meu, que com as minhas capacidades e competências que podia ser o que quisesse e que devia, mas é desistir, porque daqui a pouco tenho é que pagar para ensinar…
Pronto, esse é o reverso da medalha. Daqui a uns meses vão acabar 2 turmas e vou ficar com pouquíssimas horas. Se calhar, vou ter mesmo de desistir e começar de novo noutra área qualquer, mas nem quero pensar nisso, em Outubro, depois vê-se…
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