Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Diálogos alternativos de Natal 19/12/2007

Filed under: contos da jacky,Natal — jacky @ 5:28 pm

Eram duas mulheres, separadas por vários quilómetros, que passavam sempre o Natal da mesma forma. Não tinham nascido no mesmo ano nem tinham tido os mesmos amigos. Tinham sempre vivido longe uma da outra, mas estavam próximas pelos hábitos em muitas coisas, como se os planos da realidade fossem paralelos e nunca se cruzassem e os planos do oníricos perpendiculares entre si.

Ambas eram mães e ambas tinham sido filhas e sobrinhas e primas de mulheres fortes que já não eram deste mundo, ou talvez fossem, no mundo dos seus diálogos alternativos. Todos os Natais, elas chegavam para conversar. Falavam sobre o bacalhau que se podia comprar e de outros manjares como o Bolo-Rei e o Pão-de-Ló. Discutiam as relações familiares e de quem estaria presente. Se haveria presentes no sapatinho do Menino Jesus. Viviam assim naquele plano alternativo que as tornava saudosas e ausentes.

A Ceia acabada, olhavam em frente e viam que afinal já lá não estavam. Apenas ficavam as filhas e nem todas… Para quê acordar deste sonho, destas companhias que faziam parte delas? Então, levantavam-se da mesa e procuravam na televisão os rostos de outrora que já não se reencontravam… Desencantadas, iam deitar-se cedo e abandonavam assim as filhas na Ceia de Natal. As filhas já tinham desistido de chegar através destas nebulosidades.

No fundo, não há solidão mais triste que aquela que só encontra conforto em diálogos alternativos com pessoas já mortas…

 

O tigre 05/03/2007

Filed under: animais,contos da jacky — jacky @ 1:24 pm

Era uma vez um tigre que vivia num habitat recheado de animais. Havia de tudo desde os mais pequenos insectos até aos maiores felinos. Havia regras a cumprir conforme cada espécie e todos conviviam baseados na lei do respeito mútuo e também, às vezes, pela lei do mais forte. As personalidades dos animais eram muito variadas, embora dentro da mesma espécie, todos se comportassem mais ou menos de igual forma.

Ora, nesse habitat, vivia uma cobra que era muito mesquinha. Estava farta de deslizar pela lama e invejava secretamente o tigre. Ele era respeitado por todos pelo seu tamanho e pela sua imponência. Sabia nadar, andar, correr e até trepar árvores, enquanto que ela não. Como não se podia comparar ao tigre e não se queria esforçar para ser respeitada pelas suas qualidades, decidiu lançar um boato para enxovalhar o tigre. Se convencesse toda a gente que ele era um rato, ele perderia a sua fama. Com um pouco mais de maledicência, talvez até ele próprio pudesse acreditar que era um rato e desaparecer daquele habitat para sempre. Sem ele por perto, teria muito mais influência sobre os animais mais fracos.

O boato começou a correr. Primeiro que o tigre era um grande rato. Depois, que era um rato sem riscas. De seguida, um rato minúsculo. Tudo servia para diminuir a condição do tigre dentro do seu habitat. Os animais mais sábios nem ligaram. Sabiam que não se devia dar ouvidos a um boato e a fazê-lo dever-se-ia sempre tentar descobrir primeiro se ele tinha fundamentos ou não. Outros mais ingénuos, ouviram, acreditaram, duvidaram e depois esqueceram. Os mais fracos fizeram do boato uma verdade e passaram a ver um rato na figura do tigre.

Quando o tigre descobriu o que andavam a falar dele, teve uma reacção de irritação profunda e teve vontade de ir ter com todos os que andavam a difamá-lo para se explicar. Depois, pensou melhor e decidiu ignorar. Ele era um tigre. Não é porque andavam a dizer dele que era um rato minúsculo sem riscas que ele se ia transformar num. Ele era um tigre, o maior felino existente na terra e assim continuaria a ser. Quanto aos animais que acreditavam que ele era um rato, sabia que tinham ficado com a memória e a percepção da realidade distorcida. Desde que não se metessem com mais nenhum tigre, em princípio, ainda viveriam uma longa vida. Quantos aos outros, seriam certamente apanhados de surpresa quando se apercebessem que o suposto rato tinha a força e a imponência de um tigre menos paciente do que ele, um tigre que os esmagaria pela lei do mais forte…

Jacky (05.03.2007)

 

Encomenda 14/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 4:05 pm

Conto erótico que vos ofereço, especialmente neste dia dos Namorados 🙂

Já não sentia o próprio corpo. Regressava a casa, após mais um dia entendiante e cansativo. Entrou no prédio carregada de sacas de compras e, claro, a porta estava fechada. Quando vinha sem nada, estava sempre escancarada para trás. Procurou a chave no meio do caos da sua mala. No finzinho de tudo. Já que estava ali, foi ver qual das simpáticas contas para pagar lhe tinha escrito. Nenhuma.

Ao invés, tinha lá uma pequena encomenda de correio verde. Para ela? Devia ser engano! Não… Era mesmo para ela. No remetente, um apartado qualquer. O que seria? De quem seria? Enfiou a caixa numa das sacas e dirigiu-se para o elevador.

Uns andares mais acima, abriu a porta. O cão ladrou. Sinal da sua chegada. Alerta aos vizinhos. Pousou as sacas na cozinha. O cão deu uns pinotes de contentamento. Bifes para mim, parecia ele dizer? Meteu no frigorífico os frescos e os congelados. Tirou o casaco e pegou na encomenda. Abanou-a. Não emitia qualquer som e era leve. Com uma faca, tirou a fita-cola e abriu-a. Corou violentamente! Uns bóxeres! A caixa trazia uns bóxeres dentro, e masculinos! Ainda bem que não tinha cedido à curiosidade e não tinha aberto a encomenda à frente do vizinho do 8º andar que costumava galá-la com o olhar no elevador. O coração batia quase dolorosamente com o espanto. Depois, penso nisso, falou para si própria. Foi tratar dos seus afazeres. Jantar. Loiça. Umas roupas para pôr a lavar e estender. Minutos que se transformaram em horas passaram sem que os pudesse agarrar.

Banho. Merecia um duche bem quente para descontrair o corpo mortiço. Mmmm a água pelo rosto e pelo cabelo. Lavou-o bem lavado. Ensaboou-se sempre com água quente a correr pelo corpo, pelos ombros e pelo pescoço, doce massagem. Já não se lembrava da última vez que umas mãos lhe tinham massajado o pescoço, nem que um homem a tivesse acariciado. Vivia fechada sobre o próprio corpo, sarcófago de sensações adormecidas. Enrolou-se no roupão. Secou o cabelo numa toalha. Passou creme para amaciar a pele. Vestiu a sua camisa de noite avermelhada que tinha comprado num desses dias, em que lhe apeteceu fazer uma loucura. Para quê? Ninguém nunca a tinha visto, nem nenhumas mãos lha tinham tirado.

Deitou-se na cama, cabelos ainda húmidos, refrescantes na almofada. Na mesinha de cabeceira, em cima do habitual livro: a encomenda. Tirou os bóxeres da caixa. Eram simplesmente brancos. A medo, aproximou-os do nariz. Cheiravam a qualquer coisa que não sabia bem definir. Cheiravam-lhe a homem.

Imperceptivelmente, ficou acelerada. Apeteceu-lhe tirar a camisa e sentir a frescura dos lençóis na pele. Tirou as cuecas. Cheirou-as. Tinham cheiro a sabão porque tinha acabado de as vestir, ainda não tinham guardado o seu próprio cheiro. Apeteceu-lhe sentir a textura dos bóxeres pelo corpo. Acariciou-se ao de leve com eles no peito, sobre a barriga e na parte interna das coxas onde a pele era mais tenra. O cheiro dele tinha-lhe ficado retido nas narinas. De olhos fechado, imaginou-o ali ao lado dela.

Ele aproximou-se. Encostou o seu corpo nu ao dela. Sentiu um frémito irresistível. Ele, na sua boca. Ele, no seu pescoço. Ele, agarrado às suas nádegas. Uma mão entreabre-lhe as pernas. Um dedo atrevido no seu sexo. Respiração acelerada. Dedo dominador que a tomou sem reservas. Não há qualquer pudor no desejo que cresce por dentro de uma forma quase violenta. Geme, mas apetece-lhe gritar, dizer-lhe coisas obscenas ao ouvido. Que ficaria ele a pensar? Pergunta perdida no meio do furacão de sensações que se abate sobre ela, com aquele dedo que simplesmente não pára, nem pretende parar. Chora. É demasiado. Não consegue conter as sensações dentro do corpo tanto tempo fechado.

Abre os olhos. Ele não está ali, mas está. O cheiro dele fez emergir nela a vontade de ser mulher, de voltar a sentir, de ceder aos impulsos e aos desejos. Paz. Corpo aberto. Corpo saído do sarcófago da insensibilidade. Agora, ela era todo corpo.

Adormece nua, agarrada aos bóxeres, a pensar que amanhã tem de descobrir de quem são…

Jacky (06.09.2005)

 

Paciência 10/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 4:06 pm

Ele era paciente. Sempre fora assim. Nunca fora de precipitar-te sobre as coisas, nem de se apressar. Tomava sempre o seu tempo. Ele sabia que a pressa é inimiga da perfeição e para ele, perfeição era saborear o momento com tempo. Às vezes, deixava escapar algumas oportunidades. Outras vezes, colhia os frutos que tinha semeado há muito tempo atrás.

Demorava a preparar-se de manhã. Tomava banho lentamente, sentindo na pele, a macieza do seu gel preferido e a água a escorrer-lhe pela pele. Desfazia a barba com calma, pormenorizadamente. Gostava de comer devagar. Reter o gosto na boca mais tempo. Sofria do stresse do trabalho como os outros mas a lentidão tornava-o mais perfeccionista.

Talvez por ser assim, sentia-se sempre atraído por mulheres eléctricas, recheadas de vida. Tentava tocar-lhes com o seu olhar quente, mas a maioria nem reparava nele, permanecia demasiado na sombra. Apesar da indiferença e das rejeições, mantinha-se firme. Sabia que havia de a encontrar, aquela que o haveria de arrebatar com paixão, aquela que viria repousar na sua doçura. Era só uma questão de deixar aqui e ali umas gomas de carinho, uns rebuçados de amor, uns quadradinhos de prazer. Sabia bem que mais tarde ou mais cedo, conseguiria cativar toda aquela energia. Era só esperar…

Jacky (13.11.2005)

 

Dependente 09/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 9:10 am

Ele vivia sozinho há uns meses. Não lhe faltavam candidatas para preencher o lugar vazio da sua cama de casal. De vez em quando, lá saía com uma. O problema era quando elas se atiravam descaradamente e queriam fazer dele embrulho em lençóis. Não que ele fosse frio, pelo contrário, adorava sexo. Só que não era capaz…

Tinha dado tudo àquela mulher, como na canção do Paulo Gonzo: não só os anéis mas também os dedos, que ela não tinha devolvido. As suas mãos ainda percorriam o corpo dela em pensamento, todas as noites, quando ficava horas e horas sem dormir. Tinha-se dado totalmente a ela, tinha querido fundir-se nela, mas ela já não o queria. Ou talvez quisesse?

Às vezes, ela mostrava sinais de querer uma reconciliação e ele ficava esfusiante. Era agora que tudo ia voltar à normalidade. Porém, sem bem saber porquê, voltava a frieza. Ele não se dava conta que era apenas ele que alimentava a chama da idolatria por ela. Ela apenas correspondia em dias que se sentia mais carente e em que a obsessão dele a fazia sentir-se desejada. Ela não estava a ser correcta e sabia-o. Talvez tivesse pena dele. Talvez o fizesse em memória dos dias felizes, mas não o amava mais.

Ele queria dar tudo em troca de nada. Sofria por amor, preso a um sentimento desprezado. Não era masoquismo, era apenas protecção. Afinal, era mais fácil viver no passado, preso a um amor idealizado do que dar a aoportunidade a uma outra mulher. Podia apenas querer usá-lo, poderia apenas querê-lo para depois abandoná-lo de novo. Para quê dar hipótese àquela mulher doce que o atraía muito? O medo de não ser amado era demasiado grande…

Jacky (21.10.2005)

 

Sede 08/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 10:05 am

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Ele tinha sede, muita sede. A vida dele atravessava uma seca persistente. A vegetação dos seus pensamentos ameaçava murchar de dia para dia. A floresta dos seus afectos parecia mais um deserto recheado de cactos do que árvores. Talvez por isso fosse amargo, cortante como os picos dos seus cactos.

Um dia, perdido na blogosfera, procurava quem lhe desse um copo de água, palavras que fizessem renascer os seus afectos. Encontrou-a por acaso, através duma pesquisa no google. Ficou deslumbrado. Às vezes, as suas palavras eram fonte onde os pardais iam bebericar. Outras vezes, eram palavras em catadupa que pareciam cataratas. Outros dias, escrevia como lago tranquilo.

O que ele mais gostava era quando lia nela reflectido o oceano: ora manso, ondas em forma de lã de ovelha; ora bravo, ondas gigantes e avassaladoras. Sabia que tinha encontrado a água mágica que tanto procurava, quando viu florescer uma pequena flor lilás num dos seus cactos.

Agora só queria ser barco para poder navegar nela para sempre…

Jacky (15.11.2005)

 

Frio 07/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 9:00 am

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Ela tinha frio, muito frio. Há muito tempo que o seu coração estava a hibernar, encarcerado dentro de um iceberg. Ligava sempre o aquecedor e o cobertor eléctrico nos dias frios. Tinha vários cobertores na cama. Vestia camisolas de gola alta e botas forradas. Tudo fazia para sair do entorpecimento.

Certos dias, a solidão insinuava-se, transformando as pequenas gostas de orvalho felizes da sua existência em geada cortante. Ficava assim isolada, sem saber como, nem porquê, naquele pólo Norte, onde nem pinguins lhe podiam fazer companhia.

Às vezes, sentia-se melhor perto dele. Ele fazia-lhe lembrar Prometeu que roubou o fogo aos deuses para dar aos homens. Sentia-se atraída por ele como fósforo, pronto a incendiar-se. Tinha vontade de cozer o bolo dos seus afectos na sua fornalha. Primeiro, em lume brando, para não se queimar. Depois, talvez, atear a labareda.

Tinha medo, muito medo de tornar-se pirómana, dependente da fogosidade do seu corpo para se sentir viva de novo. Receava provar o sabor da apoteose, sentir em si fogo de artifício e depois, arrefecer de repente com o extintor da indiferença. Na verdade, já tinha sido fénix e não sabia se teria capacidade de renascer das cinzas do abandono de novo.

Agora, tinha menos frio, mas preferia ainda ficar à distância. Não fosse ele apenas fogo de vista e deixar morrer as brasas ao mais pequeno descuido…

Jacky (16.11.2005)