Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Considerandos sobre o amor (87) 01/09/2010

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 1:10 pm

Amigos e Amoramigos

Gosto da amorizade, é como uma amizade especial recheada de carinho e atenção especial. Amorizar nem sempre é fácil e ser amorizado ainda é mais difícil.

Há pessoas que são boas amigas, vivem recheadas de afectos no coração, mas que são incapazes de passar do virtual para o real. Vivem como que enclausuradas em passados complicados, em recordações de amizades fracassadas, de afectos mal correspondidos… Querem ter amigos mas não conseguem sair do círculo fechado da família, não são capazes de pedir ajuda quando precisam, nem de se aventurar pelos mundos desconhecidos de outras mentes humanas.

Há pessoas que têm amigos mas que anseiam por serem o centro das atenções. Precisam de ser as favoritas, as que todos preferem. Sentem-se mais amadas se forem as escolhidas entre todos os demais. Quando não conseguem, quase pedincham afecto de quem lhes faz falta e acabam por não valorizar quem realmente as ama. Ficam com ciúmes de amizades especiais que existem há uma vida e metem-se no meio, tentando ficar a par dessa mesma amizade.

Há pessoas que adoram fazer amigos novos, andam sempre a conhecer gente nova, mas acabam por não manter amigo nenhum pois não cultivam as amizades antigas.

Há pessoas que são amigas desde que continuem na sua vida simples, não apoiam se lhes causar complicações, não tomam partidos se tiverem de gerir conflitos, estão apenas lá, desde que não lhes perturbe a vida.

Há pessoas que são tão carentes que parecem esponjas afectivas, seguem-nos para todo o lado, impõem-se a todo o momento, forçam a entrada na nossa vida, pedem atenção, apoio, ajuda, palavras e depois quando arranjam outro amigo que acham que poderá preencher as suas carências, desaparecem para viver em exclusivo para essa outra pessoa.

Há pessoas que são como bálsamo, que curam as nossas feridas, que reconfortam com as suas palavras, umas verdadeiras enfermeiras da alma.

Há pessoas que são como papoilas, que aparecem e nos tiram da depressão, nos fazem rir, nos fazem fazer figura de parvos e gostamos, que alegram a nossa vida com as suas gargalhadas e parvalheiras.

E depois, há os amoramigos, que são como os alicerces da nossa casa da amizade.

Todas essas pessoas fazem parte da nossa vida a todo o momento e todos os dias e e essa multitude de pessoas e de personalidades que nos faz crescer no mundo da amizade com os fracassos, as perdas, as descobertas, a partilha… Obrigada a todos por fazerem parte da minha vida.

Jacky (01.09.2010)

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Considerandos sobre o amor (86) 31/08/2010

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 1:35 pm

A insubstituibilidade

(esta palavra não deve existir mas apeteceu-me inventá-la agora)

Há pessoas que vivem as suas vidas como se fossem insubstituíveis: nunca faltam ao trabalho porque ninguém pode fazer as suas tarefas; que se sobrecarregam de tarefas porque não podem delegar pois, ninguém as faz tão bem tão bem como elas próprias; estão sempre presentes porque ninguém se pode reunir sem eles; não se permitem estar doentes, andam em pé mesmo febris; não tiram férias, ou pelo menos a totalidade delas, e mesmo em férias não se desligam das tarefas a fazer; não faltam para dar apoio em casa, à família ou simplesmente para aproveitar a presença de quem vive com elas.

Há pessoas que julgam que são insubstituíveis, mas ninguém o é. Se por acaso atravessar a rua e for atropelado e morrer, a empresa não vai fechar porque deixam de trabalhar; a família, habituada a ser posta de parte, vai perfeitamente recompor-se, afinal é só uma ausência mais prolongada e os amigos, quais amigos? Não há tempo para se perder em manter os que se tem ou para se fazerem amigos novos…

Há pessoas que pensam que são insubstituíveis, mas não são. Depois de partirem, a roda gigante vai continuar em movimento, as engrenagens apenas terão de ser ajustadas à falta de um elemento e logo logo, tudo volta ao normal.

Na verdade, as pessoas insubstituíveis da nossa vida são aquelas que gastaram tempo com os afectos, que perderam tempo para estarem connosco, que estão disponíveis, que nos ajudam quando precisamos e não quando a empresa deixa, que metem a mão na massa no que for preciso, que riem e choram connosco porque estão lá e não fechadas num gabinete qualquer, são pessoas mesmo que virtuais sabem nos ouvir e estão atentas e ao mais pequeno sinal sabem quando são precisas. Essas pessoas, sim, quando falham, deixam um vazio muito grande, fazem-nos sentir sem ar e sem alento de tal forma a perda é dura…

As pessoas que nos amam com disponibilidade afectiva e efectiva é que são a essência da própria insubstituibilidade. Um brinde às suas vidas para que nunca deixem de estar presentes nas nossas!

Jacky (31.08.2010)

 

Considerandos sobre o amor (85) 16/03/2010

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 5:32 pm

O amor às coisas

Gostamos das nossas coisas, algumas já nem as vemos, já estão lá há tanto tempo que fazem parte da mobília, outras são como troféus, recordações de momentos felizes, vitórias. Temos tendência para esconder as coisas que nos magoam, que nos relembram fracassos.

Há coisas que nunca vimos antes e por isso não as desejamos. Há outras que já temos há muito e que só voltamos a querer porque vimos alguém a desejar essa mesma coisa. O amor às coisas está muito ligado ao desejo de se possuir e preenche muitas vezes uma necessidade de nos sentirmos seguros. Possuir muita coisa faz-nos sentir bem, seguros, triunfantes.

Ter coisas é palpável, é concreto, muito melhor do que se ter afectos, muitas vezes, inconstantes, mutáveis. Cercamo-nos de coisas porque pensamos que assim poderemos suprir as nossas carências. Mas a verdade é que hoje podemos ter muito e amanhã podemos ficar sem nada num incêndio ou num terramoto.

Há alturas em que temos de mudar de casa ou de cidade, temos de decidir o que é realmente imprescindível e descobrimos que afinal precisamos de muito pouco. Podemos mudar de emprego, de cidade, de país, mas continuamos a ser os mesmos. O que realmente importa somos nós e todas essas vivências afectivas, algumas já do passado, outras ainda presentes, algumas inacabadas e outras eternas.

Há que aprender que dar e receber coisas nunca vai superar o afecto (ou não) com que essas coisas são dadas e recebidas. Ser, sentir, mais do que possuir. Pensem nisso.

Jacky (16.03.2010)

 

Considerandos sobre o amor (84) 08/03/2010

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 1:56 pm

O amor à vida

Ando fascinada com a minha mais pequena porque me faz sorver a vida, uma vida à qual já não ligamos porque já está tudo adquirido.

Uma criança pequena tem a bênção de amar a vida sem restrições nem preconceitos. Desde que viva num ambiente saudável e acolhedor, sorve todos os pequenos momentos, mesmo os repetidos com o maior dos prazeres.

Fica feliz porque consegue levar a  colher à boca com comida, porque bebem água e lhe sacia a sede e diz um aaaaaaaaaah de satisfação. Gosta de andar a correr porque sente o ar à sua volta e devagar, fazendo barulho com os pezitos só para ouvir o som que isso faz. Aprecia subir as escadas agarrada às paredes e ao corrimão e não se chateia por não haver elevador. Bate palmas quando consegue algo difícil ou quando ouve os parabéns vezes sem conta. Pega no pão com manteiga e leva-o à cara toda, sujando nariz e bochechas e gosta da sensação de lamber a manteiga. Agarra o lápis e rabisca uma folha sem preocupação estética e gosta da magia da cor que aparece. Cantarola sílabas sem sentido e grita miau com satisfação depois da canção atirei o pau ao gato. Brinca com as mãos, aprecia os dedos, repara que tem pés e que podem bater palmas também. Sabe já o que gosta e o que não gosta, diz que sim e que não com a cabeça e fica contente porque é compreendida. Desfia um floco de algodão, observando todos os pedacinhos que caem ao chão. Olha concentrada para a TV quando gosta do que vê. Olha-nos nos olhos e sorri, mesmo quem não conhece. Fica contente porque já sabe sentar-se sozinha ou trepar à cama sem ajuda.Chutar na bola,  correr atrás dela e conseguir apanhá-la. Carregar nos botões e descobrir que as luzes acendem ou que algo se liga. Gosta de observar como se cozinha, de meter as ervinhas no bife e ficar feliz com o elogio quando faz bem feito. Ri-se quando lava as mãos e tenta agarrar a água. Gosta de abrir e fechar portas mesmo se os dedos às vezes ficam lá atracados. É amiga, é leal e gosta da nossa companhia quando apreciamos a sua, porque brincamos e não estamos sentados perdidos nos nossos pensamentos, preocupações e problemas ou outras distracções.

Nós no entretanto, andamos cabisbaixos por isto ou por aquilo. Vivemos absorvidos nos nossos pequenos mundos, tentando impor os nossos pequenos egoísmos. Competimos para sermos reconhecidos pelo mundo e não ligamos a quem está mais próximo. Não valorizamos todas as pequenas conquistas que fomos tendo desde que nascemos, comportamo-nos como se tudo já estivesse garantido para sempre e não damos mais graças pela vida que temos.

Se andas, assim, ensimesmado(a), sem rumo, pára e volta a amar a vida nas suas pequenas coisas, como se fosses uma criança pequena.

Jacky (08/03/2010)

 

Considerandos sobre o amor (83) 01/12/2009

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 10:45 pm

Desordem

A desordem insinua-se sorrateiramente… Um objecto deixado aqui, um casaco pousado ali, uma caneta na casa de banho, uma coisa por acolá. São como rastos de ti, dele, dela, de mim; rastos que já ninguém reconhece como seus . O tempo arrasta-se, o acumular de coisas que estão fora do sítio desanima. Já não apetece arrumar. Tudo deixa de ter lugar certo e passa a morar nenhures. A desordem instalou-se. Não que se queira ter a casa primorosamente organizada, pois o lugar mais ordenado do mundo é sem dúvida o cemitério. A desordem faz parte de se estar vivo. O ser humano não se comporta como uma máquina. Mas quando é em exagero, não será sinónimo de uma certa agitação interior? Uma espécie de sinal exterior do que se passa no interior? Às vezes, chegamos à conclusão que precisamos de virar a página, de encerrar assuntos difíceis, de completar o que está inacabado e de simplesmente desistir de outras coisas, fazer uma triagem e deitar fora o que não necessitamos…
Como fazer? O melhor é começar pela casa: uma divisão de cada vez, coração ao alto e deitar fora, não transferir as coisas de uma divisão para a outra, sem arrumos nem sótãos tão jeitosinhos para se esconder segredos e adiar decisões… Acabar com a desordem é simplificar o que é complicado. No fundo, é dar espaço, um bem-estar minimalista que nos deixa então tempo para apreciar os pequenos prazeres da vida.
Que tal começar hoje com o acabar da desordem externa? Numa casa arrumada, medita-se melhor, há mais tempo para amorizar…

Jacky (01.12.2009)

 

Considerandos sobre o amor (82) 23/10/2009

Filed under: considerandos sobre o amor — jacky @ 4:58 pm

A amorizade entre mulheres

amorizade entre mulheres

Dizem que as mulheres são ciumentas, invejosas e traiçoeiras entre si. Nos locais de trabalho onde há muitas mulheres, principalmente, o ambiente é pesado, parece que têm prazer em contos e ditos, em confusões e em discussões. Será que a amizade entre as mulheres é algo impossível? Será que só os homens sabem ser solidários entre si?
Andei numa faculdade quase só de mulheres e detestei. Eram competitivas, coscuvilheiras, intriguistas, interesseiras e chegavam ao cúmulo de fazer queixas umas das outras aos professores. Antes das frequências, falavam tanto que ninguém conseguia pensar quanto mais se concentrar em escrever. A maioria dos dias ficava cansada só de lá estar e sentia falta do silêncio.
Porém, fiz lá duas amigas excepcionais, porque no meio do deserto também há o oásis. A Carla, além de ser prestável, tem o sentido de humor mais corrosivo que eu já conheci e sinto falta dele todos os dias! A Zulmira é a pessoa mais genuína e generosa que havia naquela faculdade! Ainda mantenho o contacto com elas, embora não fale com elas durante meses; quando nos revemos, é como se tivesse sido ontem!
Sempre gostei mais de trabalhar com homens, são mais simples e pragmáticos, mas quando preciso de apoio moral, de alguém que me compreenda, recorro às minhas amigas mulheres. Sim, amigas no plural, porque são muitas. Tenho amigas do mais diferente que há, desde extrovertidas a tímidas, de simpáticas a bichos do mato, algumas inseguras outras donas do mundo, mas todas fazem parte da minha vida. E porquê? Porque me ouvem quando desabafo, sentam-se ao meu lado quando estou calada e esperam, riem e choram comigo, compreendem certos estados de alma hormonais que só mulheres sabem entender, ajudam a minha auto-estima, telefonam quando há preocupações ou só porque lhes apetece partilhar algo, criam uma espécie de rede que impedem a solidão e a tristeza. Elas ralham, dão raspanetes, oferecem presentes, puxam as orelhas, abraçam, estão sempre lá, se não for uma, é outra!
Sim, a amorizade entre mulheres é possível, eu e as minhas amigas somos a prova disso e quando nos unirmos também na escola, no emprego, na sociedade e na política, ninguém poderá parar-nos!

Bom fim de semana, minhas amigas MULHERES!

 

considerandos sobre o amor (80) 21/09/2009

Filed under: amor,considerandos sobre o amor — jacky @ 2:17 pm

por-do-sol

Saborear os afectos

Hoje, em dia, qualquer pessoa que se preze anda com a cabeça cheia de coisas a fazer, projectos por concretizar, castelos no ar, sonhos inacabados e vivemos sempre a correr, nem sempre à velocidade da nossa mente. É como se a cabeça fosse um enorme flipper e uma bola de metal estivesse sempre a chocalhar contra as nossas listas de coisas por fazer e a tilintar. Tlim tlim! De vez em quando, lá conseguimos acabar algo e plim, pontuação máxima! Às vezes, dá direito a bolas extras e a mais listas…

O problema é nos viciamos nesse stresse permanente. Queremos sempre mais. Ainda não acabamos de fazer algo e já temos a mente coupada nas duas ou três coisas a seguir… Não somos capazes de parar… Entretanto, dois olhinhos fixam o nosso rosto, à espera de um sorriso, de uma palavra de encorajamento e nós nem os vemos. Vemos além do rosto dos nossos filhos, como se as letras das coisas por fazer se sobrepusessem tal ecran de computador em excel…

Porque nos esquecemos de saborear os afectos? É tão bom não fazer nada junto aos filhos, pois fazer nada e estar com eles a fazer o melhor que há no mundo que é fruir o tempo deles, que passa tão depressa… Gosto de estar sem fazer nada com a Sara: cantar-lhe uma canção tradicional, vê-la a brincar com os seus deditos nos seus objectos, de sentir a sua mãozinha apoiada na minha perna quando me sento no chão à beira dela, de a encorajar quando está de pé sem apoio, de a ver tentar agarrar a colher para comer sozinha. Gosto de me deitar na cama do Mário à noite e ficar assim abraçada até ouvir a sua respiração tranquila, de o ouvir falar quando dorme. Gosto de me sentar à beira dele e vê-lo jogar um jogo qualquer, de ver as suas proezas e ajudá-lo nas suas dificuldades em ultrapassar determinado nível. Gosto de lhe telefonar a meio do dia só para lhe dizer que gosto dele…

Saborear os afectos, afinal, é tão simples. Não é preciso comprar nada. Basta ter tempo para não se fazer nada e fruir a presença de quem se ama.

Jacky (21.09.2009)