Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Sara… 20/06/2010

Filed under: cartas da jacky,família — jacky @ 1:36 am

Minha filha,

Se, por algum motivo deixar de fazer parte da tua vida, antes de fazeres 6 anos, não terás recordações minhas. Há pessoas que têm lembranças da sua infância anteriores aos seis anos, mas são excepção. Pensar nisso, não me impede de ser feliz contigo, pelo contrário, absorvo todos esses pequenos momentos que passamos juntas com todo o meu ser.

Gosto de te ver a andar à minha frente tão pequenita, de ver os teus caracóis a esvoaçarem ao vento. Gosto de te ver a dar muitos saltinhos seguidos e rir por não ter caído. Gosto de te levar às compras, de te ver a meter os dedos no meio das cerejas e de me ajudar a meter as batatas dentro do saco. Gosto de andar contigo ao colo só para poder abraçar-te, mesmo sabendo que me ficam a doer as costas. Gosto de te ouvir palrar e de tentar reconhecer as palavras que me queres dizer. Gosto quando chamas por mim depois de te teres magoado ou caído e pedir um colinho. Gosto de te ver beber água num copo à crescida mesmo se te molhas. Gosto quando roubas o meu garfo para poder picar bocadinhos de comida do meu prato. Gosto de tudo em ti, mesmo se muitas vezes os dentes a nascer te deixam adoentada e rabugenta.

Gosto tanto de ti, minha filha, e espero viver o suficiente para te poderes lembrar do quanto eu gosto de ti!

A tua mamã

(20.06.2010)

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Impávido…

Filed under: emoções — jacky @ 1:07 am

Quando estava no 12º ano, tinha uma turma muito diversificada, desde grandes crânios a poetas, responsáveis e amalucados. Havia um rapaz que se chamava João Pedro que estava sempre com aquela cara que agora está na moda referir-se como «impávido e sereno». Ele estava sentado perto de mim mas passava despercebido. Talvez fosse tímido, talvez não gostasse de ser o centro das atenções, talvez estivesse habituado a ter essa cara por qualquer motivo que desconheço.

Os dias foram passando, fomos estudando e o ano lectivo estava quase a acabar. Um dia, a professora de Francês em vez de nos atazanar com o «imparfait du subjonctif» decidiu pôr-nos a cantar «Ne me quitte pas» de Jacques Brel. No início, estávamos pouco à vontade mas depois ganhámos o gosto e foi então que vi o João Pedro pela primeira vez, com olhos de ver (desculpa a redundância). Ele cantava muito bem. Mais! Ele sabia a canção de cor e cantava-a com alma. Aquele rapaz afinal também sentia e eu estava a gostar tanto de o ver assim. Parecia vivo, parecia outro! A partir daí, deixou de ser o João Pedro impávido e guardei na memória esse momento dele.

E este bláblá para quê, perguntas tu? Porque queria dizer-te que não vale a pena mascarar as tuas emoções e os teus sentimentos. As pessoas não gostam de histéricos, mas também não apreciam pessoas impávidas que passam despercebidas. Fala! Ouve! Sorri! Ri alto! Chora! Bate palmas! Dança! Rodopia! Dorme! Pára! Acorda e vive!

Jacky (20.06.2010)