Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Encomenda 14/02/2007

Filed under: contos da jacky — jacky @ 4:05 pm

Conto erótico que vos ofereço, especialmente neste dia dos Namorados 🙂

Já não sentia o próprio corpo. Regressava a casa, após mais um dia entendiante e cansativo. Entrou no prédio carregada de sacas de compras e, claro, a porta estava fechada. Quando vinha sem nada, estava sempre escancarada para trás. Procurou a chave no meio do caos da sua mala. No finzinho de tudo. Já que estava ali, foi ver qual das simpáticas contas para pagar lhe tinha escrito. Nenhuma.

Ao invés, tinha lá uma pequena encomenda de correio verde. Para ela? Devia ser engano! Não… Era mesmo para ela. No remetente, um apartado qualquer. O que seria? De quem seria? Enfiou a caixa numa das sacas e dirigiu-se para o elevador.

Uns andares mais acima, abriu a porta. O cão ladrou. Sinal da sua chegada. Alerta aos vizinhos. Pousou as sacas na cozinha. O cão deu uns pinotes de contentamento. Bifes para mim, parecia ele dizer? Meteu no frigorífico os frescos e os congelados. Tirou o casaco e pegou na encomenda. Abanou-a. Não emitia qualquer som e era leve. Com uma faca, tirou a fita-cola e abriu-a. Corou violentamente! Uns bóxeres! A caixa trazia uns bóxeres dentro, e masculinos! Ainda bem que não tinha cedido à curiosidade e não tinha aberto a encomenda à frente do vizinho do 8º andar que costumava galá-la com o olhar no elevador. O coração batia quase dolorosamente com o espanto. Depois, penso nisso, falou para si própria. Foi tratar dos seus afazeres. Jantar. Loiça. Umas roupas para pôr a lavar e estender. Minutos que se transformaram em horas passaram sem que os pudesse agarrar.

Banho. Merecia um duche bem quente para descontrair o corpo mortiço. Mmmm a água pelo rosto e pelo cabelo. Lavou-o bem lavado. Ensaboou-se sempre com água quente a correr pelo corpo, pelos ombros e pelo pescoço, doce massagem. Já não se lembrava da última vez que umas mãos lhe tinham massajado o pescoço, nem que um homem a tivesse acariciado. Vivia fechada sobre o próprio corpo, sarcófago de sensações adormecidas. Enrolou-se no roupão. Secou o cabelo numa toalha. Passou creme para amaciar a pele. Vestiu a sua camisa de noite avermelhada que tinha comprado num desses dias, em que lhe apeteceu fazer uma loucura. Para quê? Ninguém nunca a tinha visto, nem nenhumas mãos lha tinham tirado.

Deitou-se na cama, cabelos ainda húmidos, refrescantes na almofada. Na mesinha de cabeceira, em cima do habitual livro: a encomenda. Tirou os bóxeres da caixa. Eram simplesmente brancos. A medo, aproximou-os do nariz. Cheiravam a qualquer coisa que não sabia bem definir. Cheiravam-lhe a homem.

Imperceptivelmente, ficou acelerada. Apeteceu-lhe tirar a camisa e sentir a frescura dos lençóis na pele. Tirou as cuecas. Cheirou-as. Tinham cheiro a sabão porque tinha acabado de as vestir, ainda não tinham guardado o seu próprio cheiro. Apeteceu-lhe sentir a textura dos bóxeres pelo corpo. Acariciou-se ao de leve com eles no peito, sobre a barriga e na parte interna das coxas onde a pele era mais tenra. O cheiro dele tinha-lhe ficado retido nas narinas. De olhos fechado, imaginou-o ali ao lado dela.

Ele aproximou-se. Encostou o seu corpo nu ao dela. Sentiu um frémito irresistível. Ele, na sua boca. Ele, no seu pescoço. Ele, agarrado às suas nádegas. Uma mão entreabre-lhe as pernas. Um dedo atrevido no seu sexo. Respiração acelerada. Dedo dominador que a tomou sem reservas. Não há qualquer pudor no desejo que cresce por dentro de uma forma quase violenta. Geme, mas apetece-lhe gritar, dizer-lhe coisas obscenas ao ouvido. Que ficaria ele a pensar? Pergunta perdida no meio do furacão de sensações que se abate sobre ela, com aquele dedo que simplesmente não pára, nem pretende parar. Chora. É demasiado. Não consegue conter as sensações dentro do corpo tanto tempo fechado.

Abre os olhos. Ele não está ali, mas está. O cheiro dele fez emergir nela a vontade de ser mulher, de voltar a sentir, de ceder aos impulsos e aos desejos. Paz. Corpo aberto. Corpo saído do sarcófago da insensibilidade. Agora, ela era todo corpo.

Adormece nua, agarrada aos bóxeres, a pensar que amanhã tem de descobrir de quem são…

Jacky (06.09.2005)

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7 Responses to “Encomenda”

  1. Robina Says:

    Lá erótico é :-))) Agora a aquela parte de cheirar as cuecas é mais para o dramático :-)))

    Feliz dia Jacky

  2. Hindy Says:

    Em Dia de S.Valentim ando a saltitar e a distribuir beijinhos hindyados a todos! 🙂

  3. São Rosas Says:

    «Ela» teve sorte quando cheirou os bóxeres. É que estamos perto do carnaval…
    Jackynzinha, posso publicar isto no blog porcalhoto? Posso? Posso?

  4. Meu_DIA Says:

    Ele: Mulher de dois cérebros,
    Quais são os desafios que tu não gostas?
    Ela:Quais são os desafios que eu não gosto?
    Não gosto de desafios fáceis, embora sejam mais cómodos….
    Não gosto de coisas “corriqueiras”, pq toda a gente as faz….
    Não gosto de desafios que me façam sofrer, pq sou frágil….
    Não gosto de desafios que magoem os outros, pq preciso deles…
    Não gosto de desafios sem risco, pq assim n é desafio….
    Não gosto de desafios onde n me entregue, onde n sinta, onde n sue, pq assim sendo eu n estou lá…..
    Não gosto de desafios onde n deixe a minha marca, a minha pele, pois só assim posso recordar q foi bom, e q tentei fazer o melhor…

  5. Meu_DIA Says:

    Continuação …..

    Ele:Achei bonito o que escreves-te.
    Imaginei um desafio a porpor-te…por isso perguntei…
    A tua resposta está no limite de merecer a proposta ou não.
    Bom…gosto de transportar-me para a loucura

    Ela:Porque falas comigo, como se estivessemos no éter?
    Parece um jogo. Cada palavra uma chave. Eu, estou a jogar? Tu estás no jogo?

    Ele:Sim é um jogo.
    Dá-me gozo descobrir a tua inteligência e a parte escondida de ti para ti. Com palavras e se possível actos…

    Ela: N me faças mal. Nos desafios temos q partir com vontade, com vontade de atingir um objectivo. N de atingir quem está ao lado.
    I’m just a person, I’m just a woman.
    N penses q me é indiferente a tua loucura, agradam-me os extremos, a normalidade enfastia-me.

    Ele:Sempre desconhecemos uma parte de nós…
    Tenho uma fantasia que me surgiu de ti. É, e deve ficar claro, única. Poucas pessoas podem compatibilizar-se com essa fantasia.

    Ela:Tens um código muito próprio, para te exprimires….Díficil de entender, encriptação com um algoritmo complicado.
    Quem te consegue descodificar?

    Ele:Queres que te conte ou não?

    Ela:Só quero q contes, se tiveres vontade de Me contar.
    Eu tenho vontade de te ouvir.

    Ele:Deves preparar um espaço transcendental. Velas dentro de púcaros de cor. Um incenso penetrante.
    Um lençol branco no chão cobrindo algo fofo do tamanho do teu corpo. Duas toalhas grandes fofas também.
    Queres que continue?

    Ela: sim…

    Ele:Recebes-me nua…enrolada numa toalha. Só trocando o olhar comigo.
    Eu levo um oleo muito especial….

    Ele:Sei que queres….

    A minha massagem é muito mais que o toque das mãos será uma tentativa de comunicar com o teu ser interno….com o mais profundo de ti…
    e….

    Ela: e….

    Ele:tu procuras sentir-me a mim…como um todo
    Finalmente eu saio com uma nova troca de olhar.
    That´s it.

    Ela: Onde e quando?

    Ele: Sexta-feira, às 18h33.

  6. Yashmeen Says:

    Ui, tu tens jeito para a coisa!! 😉

  7. jacky Says:

    Bem, eu adorei os vossos comentários. Estava com um pouco de receio que não fosse bem aceite 🙂

    Melhor cheirar que sofrer de sinusite, Robina :mrgreen:

    Beijinhos Hindy

    São Rosas, sua distraída!

    Meu dia, gostei do diálogo que surgiu a partir de uma história 🙂

    Obrigada Yashmeen


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