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Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Haiku 28/11/2006

Filed under: escrita,poesia — jacky @ 10:15 am

 

A ORIGEM

O haiku deriva duma forma anterior de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha 5 versos, de 5 e 7 sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte.

No século XV, os muitos concursos de poesia tanka deram origem a um jogo de escrita de longos poemas: a primeira estrofe, de 3 versos (com 5, 7 e 5 sílabas), era sugerida por um poeta e as restantes iam surgindo e associando-se, num jogo competitivo entre vários poetas. Este tipo de poesia era a renga, de temática clássica, e os primeiros três versos (os mais importantes, pois serviam de mote) designavam-se por hokku. No século XVI, tornou-se mais popular o haikai-renga, de temática humorística.

Rapidamente a estrofe inicial de 3 versos acabou por se tornar uma forma independente de poesia. Mas só no século XIX, o mestre Masaoka Shiki lhe atribuiu um nome: haiku (pela junção das palavras haikai e hokku).

A EVOLUÇÃO

Bashô Matsuo (1644–1694), considerado o primeiro e maior poeta japonês de haiku, nasceu samurai e adoptou a simplicidade tanto na vida como na criação poética.

Enriqueceu o haiku, superando a artificialidade de poetas anteriores e tornando-o artistica e socialmente aceite. A par de poemas de carácter lúdico, começou a valorizar o papel do pensamento no haiku, imprimindo-lhe o espírito do budismo zen.

Versátil, os seus poemas sugeriam os mais variados estados de espírito: humor, depressão, euforia, confusão,… permitindo uma consciência da grandiosidade da natureza ( física e humana ).

Este caminho

Ninguém já o percorre,

Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida

Chega? Não sei.

Mas é seu perfume.

Outros poetas do género se lhe seguiram: Buson Yosa (séc. XVIII), Shiki Masaoka (séc. XIX), Koi Nagata (séc. XX).

De salientar Shiki, crítico de Bashô por considerar que a sua poesia carecia de pureza e tinha demasiados elementos explicativos: o haiku deveria ser a partilha de um momento e não a sua explicação, privilegiando a descrição visual e o estilo conciso.

Nem Shiki nem os poetas contemporâneos afirmaram uma ligação ao zen, como Bashô, embora seja inegável que a essência desta filosofia continue presente em muitas composições haiku.

As características

“O haiku é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haiku capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado,

a natureza humana, a vida”. (A. C. Missias, biólogo e poeta americano)

Basicamente, o haiku define-se como uma forma poética que, quanto à forma, tem três versos curtos e, quanto ao conteúdo, expressa uma percepção da natureza.

Os três versos (sem rima) apresentam, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas métricas japonesas. A métrica japonesa assenta essencialmente no elemento duração: por exemplo, a palavra Bashô, metricamente tem três sílabas ou unidades de som, porque o /o/ final é longo.

São dois os elementos de conteúdo, em não mais do que duas frases: uma percepção sensorial (particular e imediata) e uma percepção sugestiva (de maior amplitude circunstancial ou semântica). A separação entre os dois elementos é feita por uma palavra ou sinal gráfico (kireji).

A percepção sensorial parte de um vocábulo associado a um elemento da natureza e, frequentemente, às estações do ano (Kigo) O kigo representa o aqui e agora que originou uma dada emoção/sugestão.

Não apresenta objectividade, mas a subjectividade expressa provém sempre de uma objectividade captada pelos sentidos. Uma sensação concreta – visual, auditiva, táctil – permite associações, sentimentos, memórias, o reconhecimento de um conjunto mais amplo em que essa sensação se encaixa.

O kaiku capta o instantâneo, regista, enquadra, presentifica, evoca, emociona… a ligação semântica entre as palavras expostas será sempre feita pelo leitor.

É, pois, uma forma de poesia breve, depurada, bela, simples e fluente. É uma reacção estética minimalista à crescente consciência humana do caos.

Exige uma atenção aos mais pequenos eventos da natureza objectiva e imediata; uma permanente atitude de espanto perante o fenómeno da natureza.

Pressupõe uma relação entre o particular e o geral, entre o mais individualmente percebido e o ritmo cósmico da natureza, entre a efemeridade da sensação e o eco que esta pode despertar na sensibilidade e na memória, promovendo uma união entre o sujeito e o objecto. De referir que, no Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem também é a natureza, por isso, o conceito de união remete para aquele momento específico em que o homem reconhece essa natureza a que ele também pertence.

O haiku foi absorvido por outras culturas e línguas, tendo ganho popularidade em diversas regiões do mundo durante o século XX, nomeadamente no Brasil, América, Canadá, França, Índia e alguns países dos Balcãs.

O haiku (frequentemente designado por haicai pelos poetas de expressão portuguesa) chegou ao Ocidente, quer pela via da imigração japonesa, quer pelo fascínio que o Oriente foi gradualmente exercendo sobre os ocidentais e que culminou, no caso da literatura portuguesa, no exotismo presente em textos simbolistas de final de século (Venceslau de Morais e Camilo Pessanha).

Venceslau de Moraes (1854-1929) cedo se sentiu fascinado pelo Japão, onde viveu largos anos, sendo a sua obra reflexo da cultura oriental. Traduziu diversos haiku japoneses, optando frequentemente pela quadra, por a considerar a única forma breve e popular que se equivale na tradição portuguesa. Mas, na opinião de alguns estudiosos, acabava por desvirtuar o espírito, e até o conteúdo, do original. Como exemplo, a tradução de Morais do famoso haiku de Bashô: “O velho tanque- / Uma rã mergulha, / barulho de água.”:

Um templo, um tanque musgoso;

Mudez, apenas cortada

Pelo ruído das rãs,

Saltando à água. Mais nada…

Já o poeta Herberto Helder (1930) , também tradutor de poesia de diversas culturas antigas, apresenta traduções mais aproximadas:


Primeira neve:

Bastante para vergar as folhas

Dos junquilhos.

Festa das flores.

Acompanhando a mãe,

Uma criança cega.

Monte de Higashi.

Como o corpo

Sob um lençol.

Ah, o passado.

O tempo onde se acumularam

Os dias lentos.


O haiku ocidental apresenta diferenças do tradicional japonês, principalmente no aspecto formal. Naturalmente, a especificidade da língua japonesa (o léxico, a sonoridade e o próprio conceito de sílaba métrica) inviabiliza qualquer reprodução fiel nas línguas ocidentais, surgindo mesmo distintas traduções para um mesmo poema. Dificilmente, a língua portuguesa e a inglesa, por exemplo, conseguem adoptar com rigor a métrica de 17 sílabas, distribuídas em versos de 5, 7 e 5 sílabas, sem perder a fluência, a leveza e a naturalidade que caracterizam o haiku japonês. Os haiku escritos ou traduzidos por ocidentais mantêm do original: a brevidade; a recorrência a vocábulos associados à natureza ou às estações do ano, a associação de percepções (sensoriais e emocionais) e a divisão da estrofe em três versos. A temática é mais abrangente.

A concisão da forma e, essencialmente, a percepção da natureza são elementos muito marcantes nalguns poetas contemporâneos, nomeadamente em Eugénio de Andrade e Albano Martins.

A poesia de Eugénio de Andrade ( 1923 ), poeta que nunca se integrou em qualquer movimento literário específico, caracteriza-se pelo valor dado à palavra, à imagem, à musicalidade, aproximando-o, entre outros, do simbolismo de Camilo Pessanha. Tende a rejeitar os dualismos da cultura ocidental, representando o Homem como um ser integrado numa realidade colectiva. Surge por vezes a analogia entre as idades do homem e as estações do ano e, através de descrições ou evocações físicas, tenta versar a plenitude da vida, a pluralidade dos instantes. São muitos os poemas breves ou de versos curtos, aparentemente simples, mas de grande profundidade:

Tocar um corpo

e o ar

e a língua de neve.

Tocar a erva

mortal e verde

de cinco noites

e o mar.

Um corpo nu.

E as praias fustigadas

pelo sol e o olhar.

As palavras, vício

torpe, antigo.

As últimas? As primeiras?

Como os ouriços

abrem-se ao rumor do mundo:

o sol ainda verde dos limões,

os esquilos

doutras tardes, o latido

da chuva nas janelas,

os velhos em redor do lume

– nunca foram tão belas.

Albano Martins (1930), actualmente professor universitário no Porto, tem-se distinguido particularmente no campo da poesia, do ensaio e da tradução. A sua obra poética caracteriza-se pelo encontro equilibrado entre a contenção (forma breve e linguagem depurada) e o poder imagético da palavra (suas inúmeras possibilidades associativas e metafóricas): “O ritmo / do universo/ cabe,/ inteiro,/ na pupila/ dum verso.” Em 1995, editou poesia haiku de sua autoria, sob o título “Com as flores do salgueiro – Homenagem a Bashô”. Aqui se transcrevem algumas composições:

Um pássaro

no ninho: uma gaiola

perfeita.

Crepúsculo. Gaivotas

em repouso velam

o cadáver do sol.

Uma concha bivalve:

borboleta do mar,

de asas fechadas.

Jogo de sedução

entre o vento e as folhas.

Prazer volátil.

Juncos em movimento.

Os cabelos da água

penteados pelo vento.

Borrão azul

na brancura da página:

o poema.

(informações retiradas daqui: haiku, poesia tradicional japonesa)

 

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