Da mesma forma que na intertextualidade, há cruzamento de textos variados, palavras que estão ligadas a palavras de outros textos, ideias que fazem lembrar outras ideias, a intermusicalidade é música que faz relembrar outras músicas, videoclips que fazem lembrar outras imagens. Hoje em dia, é difícil criar coisas completamente inovadoras e privilegia-se a ligação em cadeia.
Quando o filhote me pediu para ver este videoclip Rock this party, do Bob Sinclair, expliquei-lhe que havia várias imagens que remetiam para outras imagens de outros videoclips antigos, muitos deles do meu tempo de juventude. Tentei então identificar todas as imagens mas tive alguma dificuldade com algumas.
A primeira deve ser uma banda de heavy metal que não identifiquei. A segunda tem a ver com the school of rock. A terceira é um grupo qualquer de rap. A quarta está relacionada com o Bob Marley. A quinta é outra banda de heavy metal. Depois, aparece uma imagem ligada a um velho carro americano (já agora se alguém souber a marca, o filhote ficaria encantado em saber. Bem andei a ver os Corvettes mas não era esse). Depois, aparecem os Beatles retratados. Depois deles, talvez seja o Eminem em cima da mesa que bate a porta no nariz a um fulano, que vai lá dizer para baixar a música, e que se parece estranhamente com o Juanes da famosa camisa negra. A seguir, sem dúvida nenhuma, remete-nos para o Saturday Night Fever com o John Travolta. O último videoclip famoso retratado é o Thriller do Michael Jackson (há muito que não consigo tolerá-lo, mas não há dúvidas que isto é um clássico de quase 15 minutos). Mostrei-o ao filhote. Disse-lhe que na altura era assustador embora depois ver os zombies a dançar me fizesse mais rir do que assustar. Logo no início, ele pergunta:
– Onde está o Michael Jackson?
– É este aqui a falar com aquela rapariga. – O filhote fica pasmo e diz:
– Mas então não são duas raparigas que estão a falar!? 😯 – Pois, também a mim, me pareceu sempre estranha aquela fixação que ele tinha em parecer-se com a Diana Ross. Oxalá tivesse sido essa a sua única pancada…
E pronto, tudo o que meta o prefixo inter- ao barulho é complicado, porque temos de partir do pressuposto que as pessoas conhecem as outras coisas com que se relacionam. Em Português, está cada vez mais difícil relacionar textos. Os miúdos lêem pouco, estão interessados noutras coisas. Há dois anos por exemplo descobri que a maioria nem sabia a história do cavalo de Tróia e é grave. Já ninguém lhes conta histórias e as narrativas fazem parte de nós. O ser humano sem narrativas pessoal vive desestruturado. Por isso, peço-vos contem histórias às crianças sempre que puderem…