Um professor de Português é um burro carregado de livros, digo eu.
Na escola do filhote, não pode haver biblioteca escolar porque já há uma a x metros e não pode haver duas num raio de x metros, fantástico não é? Conclusão, eu tenho mais livros que a escola do meu filho! Viva o Plano Nacional de Leitura!
Já dei aulas em colégios particulares (onde era preciso tirar um curso para se preencher formulários para se pedir a compra dum livro, mas havia livros). Já dei aulas numa escola secundária, onde os livros eram fechados à chave na sala dos professores porque os livros desapareciam. Já dei aulas em escolas onde as bibliotecas eram tão acessíveis (em salas longínquas, fechadas e escuras, com um silêncio sepulcral) aos miudos que estavam sempre vazias! Viva o Plano Nacional de Leitura!
Ultimamente, dei e ainda dou aulas em escolas profissionais e nenhuma delas tinha livros, no máximo dos máximos, uns maus dicionários… Conclusão? Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé e tornei-me num burro carregado de livros! Viva o Plano Nacional de Leitura, os futuros profissionais não precisam de ler!
Todos os anos, os miudos dizem-me que não gostam de ler, mas eu provo-lhes sempre que não é verdade! O que eles não gostam de ler são livros impostos, de autores distantes deles, calhamaços assustadores. Eles gostam que eu lhes leia histórias. Não gostam de ler alto porque têm receio de serem gozados pelos outros. Eles gostam que eu lhes explique o que leio, porque nem sempre têm «bagagem cultural» para fazer intertextualidade e compreender o subtexto.
Tenho imensos livrinhos de citações, adivinhas, provérbios, curiosidades que eles devoram. Tenho livros de poesia que eles lêem devagar e ficam a sorver a beleza das palavras. Às vezes, adormecem quando eu lhes conto histórias, porque andam cansados e a minha voz embrulha a vigília em sonhos. Ando sempre carregada com livros, revistas e jornais. fazemos actividades sobre temas que gostam.
Faço-os estudar gramática com jogos e desenvolvo-lhes o vocabulário com sopas de letras temáticas que eu própria crio, porque na escola onde estou a dar aulas agora, tiram fotocópias a tudo o que eu quiser (sem eu ter que preencher dúzias de requerimentos entre os quais alguns devem ser para o presidente da república)….
Faço-os cantar com letras portuguesas de músicas de que eles gostam (estou sempre acessível a aprender com eles), misturadas com outras de que eu gosto, porque eu ando sempre com o portátil, as colunas e variados cds às costas para eles ouvirem!
Empresto-lhes todos os livros que eles me pedem e eles devolvem sempre, religiosamente! E todas as aulas, lá ando eu com os prontuários, os dicionários e textos/poemas que imprimo para eles lerem. E assim me tornei numa BURRA CARREGADA DE LIVROS QUE EU COMPREI TODOS DO MEU BOLSO! Sou a minha própria biblioteca itinerante, uma contadora de histórias e não o devo ao Estado Português nem ao Plano Nacional de Leitura!…
Tenho realmente que me rir com estes planos de leitura… Bastava haver tempo para que os professores pudessem ler sem terem de cumprir quilometragens de programas. Bastava um tapete e umas almofadas onde pudessem estar sentados, deitados, como se estar a ouvir uma história fosse confortável. Bastava pouca coisa… talvez livros nas escolas! Que tal começarem por abolir essa treta dos x metros entre bibliotecas e todas as escolas SEM EXCEPÇÃO terem direito a livros?