Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Diálogos alternativos de Natal 19/12/2007

Arquivado em: Natal, contos da jacky — jacky @ 5:28 pm

Eram duas mulheres, separadas por vários quilómetros, que passavam sempre o Natal da mesma forma. Não tinham nascido no mesmo ano nem tinham tido os mesmos amigos. Tinham sempre vivido longe uma da outra, mas estavam próximas pelos hábitos em muitas coisas, como se os planos da realidade fossem paralelos e nunca se cruzassem e os planos do oníricos perpendiculares entre si.

Ambas eram mães e ambas tinham sido filhas e sobrinhas e primas de mulheres fortes que já não eram deste mundo, ou talvez fossem, no mundo dos seus diálogos alternativos. Todos os Natais, elas chegavam para conversar. Falavam sobre o bacalhau que se podia comprar e de outros manjares como o Bolo-Rei e o Pão-de-Ló. Discutiam as relações familiares e de quem estaria presente. Se haveria presentes no sapatinho do Menino Jesus. Viviam assim naquele plano alternativo que as tornava saudosas e ausentes.

A Ceia acabada, olhavam em frente e viam que afinal já lá não estavam. Apenas ficavam as filhas e nem todas… Para quê acordar deste sonho, destas companhias que faziam parte delas? Então, levantavam-se da mesa e procuravam na televisão os rostos de outrora que já não se reencontravam… Desencantadas, iam deitar-se cedo e abandonavam assim as filhas na Ceia de Natal. As filhas já tinham desistido de chegar através destas nebulosidades.

No fundo, não há solidão mais triste que aquela que só encontra conforto em diálogos alternativos com pessoas já mortas…

 

O tigre 05/03/2007

Arquivado em: animais, contos da jacky — jacky @ 1:24 pm

Era uma vez um tigre que vivia num habitat recheado de animais. Havia de tudo desde os mais pequenos insectos até aos maiores felinos. Havia regras a cumprir conforme cada espécie e todos conviviam baseados na lei do respeito mútuo e também, às vezes, pela lei do mais forte. As personalidades dos animais eram muito variadas, embora dentro da mesma espécie, todos se comportassem mais ou menos de igual forma.

Ora, nesse habitat, vivia uma cobra que era muito mesquinha. Estava farta de deslizar pela lama e invejava secretamente o tigre. Ele era respeitado por todos pelo seu tamanho e pela sua imponência. Sabia nadar, andar, correr e até trepar árvores, enquanto que ela não. Como não se podia comparar ao tigre e não se queria esforçar para ser respeitada pelas suas qualidades, decidiu lançar um boato para enxovalhar o tigre. Se convencesse toda a gente que ele era um rato, ele perderia a sua fama. Com um pouco mais de maledicência, talvez até ele próprio pudesse acreditar que era um rato e desaparecer daquele habitat para sempre. Sem ele por perto, teria muito mais influência sobre os animais mais fracos.

O boato começou a correr. Primeiro que o tigre era um grande rato. Depois, que era um rato sem riscas. De seguida, um rato minúsculo. Tudo servia para diminuir a condição do tigre dentro do seu habitat. Os animais mais sábios nem ligaram. Sabiam que não se devia dar ouvidos a um boato e a fazê-lo dever-se-ia sempre tentar descobrir primeiro se ele tinha fundamentos ou não. Outros mais ingénuos, ouviram, acreditaram, duvidaram e depois esqueceram. Os mais fracos fizeram do boato uma verdade e passaram a ver um rato na figura do tigre.

Quando o tigre descobriu o que andavam a falar dele, teve uma reacção de irritação profunda e teve vontade de ir ter com todos os que andavam a difamá-lo para se explicar. Depois, pensou melhor e decidiu ignorar. Ele era um tigre. Não é porque andavam a dizer dele que era um rato minúsculo sem riscas que ele se ia transformar num. Ele era um tigre, o maior felino existente na terra e assim continuaria a ser. Quanto aos animais que acreditavam que ele era um rato, sabia que tinham ficado com a memória e a percepção da realidade distorcida. Desde que não se metessem com mais nenhum tigre, em princípio, ainda viveriam uma longa vida. Quantos aos outros, seriam certamente apanhados de surpresa quando se apercebessem que o suposto rato tinha a força e a imponência de um tigre menos paciente do que ele, um tigre que os esmagaria pela lei do mais forte…

Jacky (05.03.2007)

 

Encomenda 14/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 4:05 pm

Conto erótico que vos ofereço, especialmente neste dia dos Namorados :)

Já não sentia o próprio corpo. Regressava a casa, após mais um dia entendiante e cansativo. Entrou no prédio carregada de sacas de compras e, claro, a porta estava fechada. Quando vinha sem nada, estava sempre escancarada para trás. Procurou a chave no meio do caos da sua mala. No finzinho de tudo. Já que estava ali, foi ver qual das simpáticas contas para pagar lhe tinha escrito. Nenhuma.

Ao invés, tinha lá uma pequena encomenda de correio verde. Para ela? Devia ser engano! Não… Era mesmo para ela. No remetente, um apartado qualquer. O que seria? De quem seria? Enfiou a caixa numa das sacas e dirigiu-se para o elevador.

Uns andares mais acima, abriu a porta. O cão ladrou. Sinal da sua chegada. Alerta aos vizinhos. Pousou as sacas na cozinha. O cão deu uns pinotes de contentamento. Bifes para mim, parecia ele dizer? Meteu no frigorífico os frescos e os congelados. Tirou o casaco e pegou na encomenda. Abanou-a. Não emitia qualquer som e era leve. Com uma faca, tirou a fita-cola e abriu-a. Corou violentamente! Uns bóxeres! A caixa trazia uns bóxeres dentro, e masculinos! Ainda bem que não tinha cedido à curiosidade e não tinha aberto a encomenda à frente do vizinho do 8º andar que costumava galá-la com o olhar no elevador. O coração batia quase dolorosamente com o espanto. Depois, penso nisso, falou para si própria. Foi tratar dos seus afazeres. Jantar. Loiça. Umas roupas para pôr a lavar e estender. Minutos que se transformaram em horas passaram sem que os pudesse agarrar.

Banho. Merecia um duche bem quente para descontrair o corpo mortiço. Mmmm a água pelo rosto e pelo cabelo. Lavou-o bem lavado. Ensaboou-se sempre com água quente a correr pelo corpo, pelos ombros e pelo pescoço, doce massagem. Já não se lembrava da última vez que umas mãos lhe tinham massajado o pescoço, nem que um homem a tivesse acariciado. Vivia fechada sobre o próprio corpo, sarcófago de sensações adormecidas. Enrolou-se no roupão. Secou o cabelo numa toalha. Passou creme para amaciar a pele. Vestiu a sua camisa de noite avermelhada que tinha comprado num desses dias, em que lhe apeteceu fazer uma loucura. Para quê? Ninguém nunca a tinha visto, nem nenhumas mãos lha tinham tirado.

Deitou-se na cama, cabelos ainda húmidos, refrescantes na almofada. Na mesinha de cabeceira, em cima do habitual livro: a encomenda. Tirou os bóxeres da caixa. Eram simplesmente brancos. A medo, aproximou-os do nariz. Cheiravam a qualquer coisa que não sabia bem definir. Cheiravam-lhe a homem.

Imperceptivelmente, ficou acelerada. Apeteceu-lhe tirar a camisa e sentir a frescura dos lençóis na pele. Tirou as cuecas. Cheirou-as. Tinham cheiro a sabão porque tinha acabado de as vestir, ainda não tinham guardado o seu próprio cheiro. Apeteceu-lhe sentir a textura dos bóxeres pelo corpo. Acariciou-se ao de leve com eles no peito, sobre a barriga e na parte interna das coxas onde a pele era mais tenra. O cheiro dele tinha-lhe ficado retido nas narinas. De olhos fechado, imaginou-o ali ao lado dela.

Ele aproximou-se. Encostou o seu corpo nu ao dela. Sentiu um frémito irresistível. Ele, na sua boca. Ele, no seu pescoço. Ele, agarrado às suas nádegas. Uma mão entreabre-lhe as pernas. Um dedo atrevido no seu sexo. Respiração acelerada. Dedo dominador que a tomou sem reservas. Não há qualquer pudor no desejo que cresce por dentro de uma forma quase violenta. Geme, mas apetece-lhe gritar, dizer-lhe coisas obscenas ao ouvido. Que ficaria ele a pensar? Pergunta perdida no meio do furacão de sensações que se abate sobre ela, com aquele dedo que simplesmente não pára, nem pretende parar. Chora. É demasiado. Não consegue conter as sensações dentro do corpo tanto tempo fechado.

Abre os olhos. Ele não está ali, mas está. O cheiro dele fez emergir nela a vontade de ser mulher, de voltar a sentir, de ceder aos impulsos e aos desejos. Paz. Corpo aberto. Corpo saído do sarcófago da insensibilidade. Agora, ela era todo corpo.

Adormece nua, agarrada aos bóxeres, a pensar que amanhã tem de descobrir de quem são…

Jacky (06.09.2005)

 

Paciência 10/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 4:06 pm

Ele era paciente. Sempre fora assim. Nunca fora de precipitar-te sobre as coisas, nem de se apressar. Tomava sempre o seu tempo. Ele sabia que a pressa é inimiga da perfeição e para ele, perfeição era saborear o momento com tempo. Às vezes, deixava escapar algumas oportunidades. Outras vezes, colhia os frutos que tinha semeado há muito tempo atrás.

Demorava a preparar-se de manhã. Tomava banho lentamente, sentindo na pele, a macieza do seu gel preferido e a água a escorrer-lhe pela pele. Desfazia a barba com calma, pormenorizadamente. Gostava de comer devagar. Reter o gosto na boca mais tempo. Sofria do stresse do trabalho como os outros mas a lentidão tornava-o mais perfeccionista.

Talvez por ser assim, sentia-se sempre atraído por mulheres eléctricas, recheadas de vida. Tentava tocar-lhes com o seu olhar quente, mas a maioria nem reparava nele, permanecia demasiado na sombra. Apesar da indiferença e das rejeições, mantinha-se firme. Sabia que havia de a encontrar, aquela que o haveria de arrebatar com paixão, aquela que viria repousar na sua doçura. Era só uma questão de deixar aqui e ali umas gomas de carinho, uns rebuçados de amor, uns quadradinhos de prazer. Sabia bem que mais tarde ou mais cedo, conseguiria cativar toda aquela energia. Era só esperar…

Jacky (13.11.2005)

 

Dependente 09/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 9:10 am

Ele vivia sozinho há uns meses. Não lhe faltavam candidatas para preencher o lugar vazio da sua cama de casal. De vez em quando, lá saía com uma. O problema era quando elas se atiravam descaradamente e queriam fazer dele embrulho em lençóis. Não que ele fosse frio, pelo contrário, adorava sexo. Só que não era capaz…

Tinha dado tudo àquela mulher, como na canção do Paulo Gonzo: não só os anéis mas também os dedos, que ela não tinha devolvido. As suas mãos ainda percorriam o corpo dela em pensamento, todas as noites, quando ficava horas e horas sem dormir. Tinha-se dado totalmente a ela, tinha querido fundir-se nela, mas ela já não o queria. Ou talvez quisesse?

Às vezes, ela mostrava sinais de querer uma reconciliação e ele ficava esfusiante. Era agora que tudo ia voltar à normalidade. Porém, sem bem saber porquê, voltava a frieza. Ele não se dava conta que era apenas ele que alimentava a chama da idolatria por ela. Ela apenas correspondia em dias que se sentia mais carente e em que a obsessão dele a fazia sentir-se desejada. Ela não estava a ser correcta e sabia-o. Talvez tivesse pena dele. Talvez o fizesse em memória dos dias felizes, mas não o amava mais.

Ele queria dar tudo em troca de nada. Sofria por amor, preso a um sentimento desprezado. Não era masoquismo, era apenas protecção. Afinal, era mais fácil viver no passado, preso a um amor idealizado do que dar a aoportunidade a uma outra mulher. Podia apenas querer usá-lo, poderia apenas querê-lo para depois abandoná-lo de novo. Para quê dar hipótese àquela mulher doce que o atraía muito? O medo de não ser amado era demasiado grande…

Jacky (21.10.2005)

 

Sede 08/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 10:05 am

agua2.jpg

Ele tinha sede, muita sede. A vida dele atravessava uma seca persistente. A vegetação dos seus pensamentos ameaçava murchar de dia para dia. A floresta dos seus afectos parecia mais um deserto recheado de cactos do que árvores. Talvez por isso fosse amargo, cortante como os picos dos seus cactos.

Um dia, perdido na blogosfera, procurava quem lhe desse um copo de água, palavras que fizessem renascer os seus afectos. Encontrou-a por acaso, através duma pesquisa no google. Ficou deslumbrado. Às vezes, as suas palavras eram fonte onde os pardais iam bebericar. Outras vezes, eram palavras em catadupa que pareciam cataratas. Outros dias, escrevia como lago tranquilo.

O que ele mais gostava era quando lia nela reflectido o oceano: ora manso, ondas em forma de lã de ovelha; ora bravo, ondas gigantes e avassaladoras. Sabia que tinha encontrado a água mágica que tanto procurava, quando viu florescer uma pequena flor lilás num dos seus cactos.

Agora só queria ser barco para poder navegar nela para sempre…

Jacky (15.11.2005)

 

Frio 07/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 9:00 am

fogo1.jpg

Ela tinha frio, muito frio. Há muito tempo que o seu coração estava a hibernar, encarcerado dentro de um iceberg. Ligava sempre o aquecedor e o cobertor eléctrico nos dias frios. Tinha vários cobertores na cama. Vestia camisolas de gola alta e botas forradas. Tudo fazia para sair do entorpecimento.

Certos dias, a solidão insinuava-se, transformando as pequenas gostas de orvalho felizes da sua existência em geada cortante. Ficava assim isolada, sem saber como, nem porquê, naquele pólo Norte, onde nem pinguins lhe podiam fazer companhia.

Às vezes, sentia-se melhor perto dele. Ele fazia-lhe lembrar Prometeu que roubou o fogo aos deuses para dar aos homens. Sentia-se atraída por ele como fósforo, pronto a incendiar-se. Tinha vontade de cozer o bolo dos seus afectos na sua fornalha. Primeiro, em lume brando, para não se queimar. Depois, talvez, atear a labareda.

Tinha medo, muito medo de tornar-se pirómana, dependente da fogosidade do seu corpo para se sentir viva de novo. Receava provar o sabor da apoteose, sentir em si fogo de artifício e depois, arrefecer de repente com o extintor da indiferença. Na verdade, já tinha sido fénix e não sabia se teria capacidade de renascer das cinzas do abandono de novo.

Agora, tinha menos frio, mas preferia ainda ficar à distância. Não fosse ele apenas fogo de vista e deixar morrer as brasas ao mais pequeno descuido…

Jacky (16.11.2005)

 

Carta 05/02/2007

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 9:00 pm

Ele voltava a casa depois de mais um dia de trabalho. Casa… Não sabia bem se podia chamar a esse apartamento quase vazio de casa. Era apenas um lugar de chegada e partida como um aeroporto mas sem a confusão. Costumava sentar-se no sofá e ver televisão até embrutecer, para não pensar, não sentir a ausência de tudo. Vivera muitos anos atormentados com presenças invasoras da sua liberdade e agora que era livre, sentia-se profundamente só.

Entrou no prédio e foi à caixa do correio, só para ver qual era a conta que era para pagar desta vez. Um envelope branco sem remetente nem destinatário chamou-lhe a atenção. Pegou nele, enfiou-o na pasta e esqueceu-se dele. Entrou em casa. Silêncio… Acendeu a televisão. Notícias, sempre as mesmas. Foi ao frigorifíco e fez uma sandes. Não lhe apetecia cozinhar. Comeu-as em frente ao caleidoscópio de imagens do noticiário para aparvalhar a populaça. Mais uma vez, adormeceu sem convicção.

Quando acordou, já passava das 2h. A caminho da cama, tropeçou na pasta e o envelope caiu ao chão. Pousou-o ao lado do colchão que lhe servia de cama. O sono espalhou-se. Deu voltas e mais voltas. Acendeu a luz. Bebeu água. Pegou então no envelope já que não tinha mais nada que fazer…

Era uma carta e dizia assim:

Basta uma palavra tua para acabares com essa solidão. Basta ligares-me hoje até à 1h e amanhã, quando chegares do trabalho, estarei eu à tua espera, com aquela mini-saia que só uso para ti e de que tanto gostas. Estarei com as meias de ligas e aquela camisola decotada que torna o meu peito cativante. Dou-te um beijo, bem quente e tu enrolas os braços no meu corpo como uma cobra à volta da sua presa. Passas-me a mão pelo corpo, na parte da coxa que fica descoberta. Surpreendes-te. Estou sem cuecas e sentes-me…
E mais não digo, deixo a tua imaginação voar pelo meu corpo. Fico à espera até à 1h. Se não ligares, minha vida seguirá outro rumo. Adeus ou até sempre.

Levantou-se de repente e pegou no telemóvel. Já não entrou sequer na caixa do correio. Aquele número era inexistente.

Jacky (03.01.2006)

 

Desafio da Hipatia II 30/01/2007

Arquivado em: blogosfera, contos da jacky — jacky @ 12:02 pm

Este foi o texto que mais gostei de escrever:

O POLVO

Ela odiava despedidas. Talvez porque tivesse participado em muitas. Habituara-se, todavia, a desligar-se desses momentos. O importante era não manter o contacto visual. Dar um último beijo com o coração de fugida. Virar as costas. Ir em frente. Nunca olhar para trás.

E agora, agora, ele estragara-lhe anos de treino em despedidas custosas. Ela ia apanhar o comboio depois do reencontro. Mais uma despedida. Talvez esta custasse mais que todas as outras. Estava abraçada a ele. Tinha um envolvimento forte e intenso. Tentou desprender-se de um braço e já lá estava outro. Mais um para tirar e depois mais outro. Parecia estar ligada aos braços dum polvo que nunca mais a queriam largar.

Precisava desligar-se para sofrer menos. Mais um beijo. Sentia a quentura da pele dele na gelidez do adeus. Precisava de voltar à independência do seu corpo, mas ele fundia-se cada vez mais nela. A tristeza crescia pelas suas entranhas. Ficou de coração oprimido a tentar sair dos braços daquela paixão em forma de polvo.

Ele olhava-a nos olhos, abraçava-a, sussurrava-lhe palavras de amor. Ela falava do presente que devia ser vivido mas não conseguia parar de pensar, de se projectar naquele futuro sem ele, sem o seu corpo, sem o seu abraço do qual queria fugir e ao mesmo tempo refugiar-se para sempre…

Finalmente, chegou o comboio. Um último beijo. Virar as costas. Ir em frente. Nunca olhar para trás. Nunca olhar para trás. Nunca olhar para trás…

De olhos secos , alma lacrimejante, viu-o partir pela janela…

Jacky

(30.12.2005)

 

Aridez 30/05/2006

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 1:38 pm

Ele era seco, mas dizia de si mesmo que era um doce. Tinha uma voz aguda que irritava os ouvidos quando saía alta. Tinha olhos grandes que ficavam bem abertos quando ria. Raramente sorria, mas reparava nos rostos indiferentes dos que conviviam com ele. Quando não falava, mantinha o rosto crispado, a remoer por dentro pensamentos ácidos sobre a falta de meiguice e de compreensão do ser humano. Vestia roupa casual desportiva para parecer descontraído. Gostava de apregoar aos ventos que era simpático e divertido, mas nunca tocava em ninguém, permanecia sempre do seu corpo fechado aos outros e quase sempre calado. Criticava os ingratos e os arrogantes, mas nunca retribuía um favor a não ser que tivesse mesmo de ser. Ficava sempre à espera que os outros fizessem algo por ele, mas nunca dizia o que queria nem pedia nada, como que à espera que adivinhassem os desejos caminhantes na sua cabeça.

Na verdade, ele era árido como um deserto em formação, porque já tinha sido um campo verdejante em criança. Precisava urgentemente de se ver ao espelho, de voltar a lavrar a terra interior e plantar sementes de afecto. Talvez, um dia, volte de facto a ser um doce…

 

Fixação 24/05/2006

Arquivado em: blogosfera, contos da jacky — jacky @ 10:40 am

Fixação no Webclub (da jacky para a wind).

 

Obra… 04/05/2006

Arquivado em: contos da jacky, emoções — jacky @ 12:33 pm

Ela não estava nos seus dias ultimamente. Pensando bem, ultimamente era um período de tempo bastante longo. Sentia uma certa melancolia da qual não se conseguia desprender. Ficava assim a pensar nos dias de ontem em que tinha sido feliz. Ficava também a pensar naqueles sonhos de adolescente em que idealizava o mundo e as pessoas, nos projectos de futuro que agora sabia não ter concretizado.

De uma certa forma, achava que tinha falhado como pessoa, que não estava à altura do seu próprio «eu» de quando tinha 15 anos. Então, refugiava-se nessas canções antigas dos anos 80, nos livros que tinha lido na sua infância, nas fotografias em que era linda e não sabia…

Estava numa profunda crise existencial já há muitos anos porque não tinha ambição suficiente para concretizar os seus sonhos. Adorava ser mãe e por isso dedicava todo o seu tempo aos filhos e a vê-los crescer. Dava-lhes o que a maioria das pessoas não dava aos filhos: tempo, atenção, disponibilidade efectiva e afectiva, mesmo que para isso fosse possível tivesse prescindido de si.

Os pais às vezes olhavam-na de lado, como que à espera que ela saísse dessa «vidinha» sem qualquer glória. Quando morresse, não haveria nenhuma rua com o seu nome nem nenhum livro em alguma prateleira escrito por ela. Não ficaria nada que a ligasse à posteridade.

Era pena, na verdade, que todos a fizessem sentir assim inútil, sem memória, mas era a sociedade do momento: ligada à projecção efémera do «eu», ao consumismo e ao narcisismo desmedido. Ela podia não ser a mulher realizada a nível profissional, a melhor em todas as vertentes, era sim uma constructora de afectos, talvez a obra mais perfeita da humanidade…

 

Rancor 03/05/2006

Arquivado em: contos da jacky, emoções — jacky @ 12:47 pm

Ele era rancoroso. Mais, o rancor já estava entranhado na personalidade dele. Não achava justo que os outros tivessem construído uma vida por cima da sua infelicidade. Se ele não era ninguém na vida, devia-o aos seus colegas competitivos e invejosos que o tinham prejudicado. Se ele não tomava mais iniciativas, a culpa era dos pais que o tinham castrado, na infância, nos seus desejos de independência. Se ele agora não tinha família, a culpa era de alguém que lhe tinha roubado a mulher que ele idealizara. Dele, é que não era a culpa de certeza!

Alimentava há anos um rancor surdo contra os colegas de trabalho, contra os pais e até contra alguns amigos que eram gente, supostamente à custa dele, porque ele sempre os ajudara e eles não. Ele achava-se generoso e prestativo, mas na verdade não o era. Talvez não se tivesse dado conta, mas o rancor tinha-se tornado veneno que corria nas veias, um veneno que o impedia de ser feliz e aberto aos outros, um veneno que era dirigido a outrem, mas que o corroía por dentro. Precisava urgentemente de encontrar um antídoto, que lhe tirasse aquele cancro alojado no coração, para parar de achar que tudo e todos estavam contra ele, para finalmente se abrir ao mundo e aos outros. A cura dependia apenas dele, de querer ser tratado porque não há pior doença que a negação…

Para ele, desejo novos tempos de afirmação…

 

Limpezas… 16/04/2006

Arquivado em: blogosfera, contos da jacky — jacky @ 9:20 pm

Ela tirou a loiça do serviço do armário, lavou-a na máquina por fases Tirou os copos de cristal da cristaleira, mas lavou-os à mão, não fossem quebrarem-se. Tirou o faqueiro da caixa e limpou facas, garfos e colheres com um pano e deixou-os a brilhar. Depois, voltou a meter a loiça, os copos e o faqueiro nos seus lugares, bem limpos e cintilantes e adiou mais uma vez o dia de festa em que poderia usá-los…Espero que este conto* não se aplique a ti, alegrão, neste dia de festa!

*Já somos 27 nos Textículos Nossos!!!

 

Paixão 10/04/2006

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 2:58 pm


Paul CurtisEla era uma freak control. Gostava de acordar sempre à mesma hora para que a sucessão de hábitos não se perdesse logo pela manhã. Atrás da porta do guarda-vestidos, tinha uma lista com a roupa que haveria de vestir naquele mês, com as saias a combinarem com as camisas, as luvas com os cachecóis, os cintos com as carteiras. Metia gasolina sempre às 3ºs e ficava com o dia estragado se, por algum contra-tempo, tivesse de pôr antes.
A melhor maneira de a enfurecer era fazer-lhe uma surpresa: aparecer-lhe em casa sem estar a contar, oferecer-lhe um ramo de flores sem ser em datas previamente assinaladas. Via sempre os mesmos programas na televisão e ouvia sempre os mesmos discos de vinil no seu gira-discos porque digeria mal as mudanças tecnológicas. Tinha sempre os mesmos amigos de há anos e há muito que desistira de amar.
Até ao dia em que entrou a Paixão na sua vida…

(Alguém quer continuar? Também se aceitam fins alternativos…)

 

Gruta III 07/04/2006

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 1:17 pm

Gruta I
Gruta IIDa primeira gaveta, saiu uma névoa envolta em mistério que rodava em cone. Fiquei curiosa. O cone transformou-se numa tela, como aqueles hologramas que se viam nos filmes e …

comecei a rodopiar para dentro daquele cenário.

Estava um dia cinzento com uma luz opaca e recheado de nuvens escuras a ameaçar chuva. Senti logo o choque da falta de sol e de calor. Estremeci e senti-me desconfortável. Estava à beira-mar e um vento gelado corria pela areia, dando cambalhotas por cima das dunas e medindo forças com as canas desamparadas.

Olhei com mais atenção e comecei a ver umas letras a desenharem-se na areia: um V, como a formação de pássaros que voavam por baixo das nuvens compactas; um E, como os dentes partidos de um pente ou como a ponta do tridente de Neptuno; um M, como dois vales que estavam separados por um rio poluído… VEM…

Um caminho formou-se na areia que conduzia às dunas como no livro de Alice no país das maravilhas. Só esperava é que não aparecesse ninguém a varrer o caminho que precisava de seguir. Virei as costas ao mar e comecei a andar…

(Continua)

 

Votos… 30/12/2005

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 12:03 pm

Ela estava cansada. Foi-se deitar. Badaladas? Passas? Para quê? Afinal, muda o ano mas continuava tudo igual. Igual, não! Aumentos de tudo menos no ordenado que nem era certo. Não conseguia dormir. Projectos? Talvez viajar mais. Boa ideia. Pensou em deixar crescer as teias de aranha no quarto dos horrores (conhecido assim pelo caos desarrumado reinante) e assim poder ir até a uma floresta tropical este Verão, indo para fora cá dentro!

Ligou a televisão. Estava a dar futebol. Faltavam alguns minutos para acabar um jogo entre Portugal-Brasil. Estavam empatados 1-1. Não podia crer! Era a final do campeonato do mundo e não sabia de nada!!! De repente, os tugas organizam-se e depois dum grande passe de Deco para Cristiano Ronaldo é golo! GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO! GOOOOOOOOOOOOOLO! Mais uns passes e PIIIIIIIIIIIIIII! Ganhámos! Ganhámos! Somos campeões de mundo! Tralala! E acordou sobressaltada. Bem lhe parecia que não podia ser já o campeonato e teve pena.

E pronto, já que 2006 se avizinha um ano negro para o país, desejo que Portugal seja campeão do mundo! E para ti, que me visita e que partilha emoções e sentimentos comigo e com as minhas palavras, desejo-te um ano de 2006 recheado de muitos momentos felizes de amorizade!

 

A espera 18/12/2005

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 1:31 am


Mais um desafio da Hipatia com um desenho da Gaivina, com o mote seguinte:Sem ti, meu astrolábio de desdita, minha caravela de esperança, mais perdida fico, mais perdida estou.

Já não há silêncio. Preenches todo o tempo e todo o espaço. És presença constante em mim. És um vírus que se apoderou da minha mente. Não sei curar-me de ti. Não há antídoto ainda para esta doença. Estou à tua espera e o tempo prolonga-se dentro do próprio tempo. Já devias cá estar. Por onde andarás? Que estarás a fazer? Com quem estarás? Será que já não me queres?…
E assim se desfazia ela em dúvidas, sempre insegura, sempre com medo de o perder, quando ele não estava.Do outro lado da cidade, ele estava preso numa sala recuada de um shopping qualquer com uns seguranças. Será que não acreditavam na sua inocência? Não tinha roubado nada na Fnac. Por que motivo os alarmes tinham tocado e o tinham enfiado naquela sala?
Já estava atrasado para o encontro com ela. O primeiro encontro deles em privado. Tinha o telemóvel sem bateria e não podia avisá-la. Tinha vindo comprar flores para lhe oferecer e mais uma ou duas coisitas necessárias.

Entrara na fnac com a ideia de levar um DVD, uma comédia qualquer daquelas românticas para criar um certo clima. Talvez o amor acontece que até ficava bem nesta quadra natalícia. Não chegara sequer perto da prateleira. E agora…? Agora estava ali preso. Tanto planeara as coisas que deitara tudo a perder.

Os seguranças pediram-lhe para esvaziar os bolsos. Ele assim fez. E fez-se luz. O que fizera disparar o alarme era a caixa de preservativos. Pediram sinceras desculpas, mas era necessário e bláblá. Já podia ir.

Saiu disparado do shopping. Rapidamente seguiu caminho até casa dela. Finalmente à sua porta, bateu. Ela veio abrir. E ele, então, disse:
- Peço desculpa, mas o meu telemóvel está sem bateria e fiquei preso… no trânsito.

 

Palavra-barco 15/12/2005

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 8:23 pm

Era uma vez, uma palavra-barco que navegava no oceano à procura da palavra-beijo. Tinham-se conhecido pela mão do Eugénio de Andrade há uns anos e desde então que não se viam…
A palavra-barco atravessou o mar da indiferença e o oceano do desprezo. A palavra-beijo saltava de boca em boca, de boca em mão. Faltava ainda muito até se reencontrarem.
Entretanto, a palavra-barco chegou às fossas marinhas da paixão e ancorou no porto do amor durante uns dias. A palavra-beijo deixou-se ir num aerograma para descansar.
Quando já não havia esperança, chegou um homem e entregou o saco do correio num pequeno barco parado no cais da poesia. O saco caído no chão deixou antever um envelope…
O resto da estória nem é preciso contá-la. Tu já sabes o resto :)

 

Noite escaldante de Verão 10/08/2005

Arquivado em: contos da jacky — jacky @ 10:48 am

Ela sempre quisera ser ar para poder pairar sobre o mundo, apenas como alma, mas nascera fogo, totalmente dada a paixões. Contudo, não era uma pessoa quente, pois facilmente se enchia de frio. Adorava tardes escaldantes de Verão. Suportava facilmente altas temperaturas e só caía na cama quando o termómetro marcava 40ºC em diante. Podia dizer-se que era como um vulcão. Em geral, estava calma e serena, mas havia um dia em que entrava em ebulição e aí não havia nem ar nem água que lhe valessem.

Até então, nenhum homem a havia feito entrar em erupção, menos um, naquela noite escaldante de Verão. Esse tinha um enorme poder erótico sobre ela. Quando ela pensava que ele não lhe causaria qualquer efeito, perdia-se com aquela voz que a fazia fantasiar como nunca. Ouvi-lo falar de tudo e de nada, ouvi-lo ler textos seus e poesias era o melhor afrodisíaco para a sugestionar e a querer tornar-se apenas corpo. Aquele homem fazia despertar o seu lado Lara Croft e estava disposta a fazer loucuras só para poder desatear a chama do desejo.

Encontraram-se já tarde, porque ambos eram tecidos de noite. Tentaram falar mas o ar estava simplesmente tórrido, irrespirável. Os pensamentos queimavam-se antes de se transformarem em palavras. Agarram-se repentinamente. Despiram-se depressa entre beijos sôfregos e sorrisos nervosos. O desejo tornara-se tão imperioso que quase era doloroso. Entrou nela como um furacão, pronto a arrebatar a lava dum vulcão. Amaram-se fogosamente, fazendo chiar a cama quase até à exaustão. Agarrados um ao outro, arrebataram-se mutuamente de uma forma brutal e inesperada. E assim permaneceram durante a noite.

De manhã, já ele partira, levantou-se da cama para que a água do chuveiro resgatasse as cinzas de si mesma. Sabia que não voltaria a vê-lo…