Amorizade

Amor + Amizade - Termo de Luandino Vieira

Considerandos sobre o amor (75) 7 de Outubro de 2008

Arquivado como: amor, considerandos sobre o amor — jacky @ 6:42 pm

Porque se gosta tanto de bebés?
Porque olham tudo como se fosse novo mesmo não vendo, porque prestam atenção às nossas palavras mesmo não percebendo, porque não nos julgam, porque não têm ideias preconceitos sobre ninguém mesmo não pensando ainda, porque adoram ser mimados e mimam de volta mesmo não escolhendo ainda família e amigos, porque nos tocam com as suas mãozinhas delicadas e por dentro com o seu amor condicional…

Sara 3 weeks old

Sara, 3 semanas

 

Considerandos sobre o amor (74) 25 de Junho de 2008

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 11:14 am

«Se revelares os teus segredos ao vento, não o culpes por os revelar às árvores»

Khalil Gibran

Photo of Stephmel

Segredos… Quem não os tem? Deverá dizer-se tudo ao outro ou guardar algum mistério em passados não revelados? Será legítimo que actos e palavras não segredados criem abismos numa relação? Às vezes, certos  acontecimentos ficam enclausurados no esquecimento do tempo para protegerem o futuro. Às vezes, certas verdades precisam de ser ditas a bem das famílias. O ideal seria termos a serenidade necessária para sabermos o justo equilíbrio entre o falar e o calar…

Que pensas acerca disto?

 

considerandos sobre o amor (73) 11 de Janeiro de 2008

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 2:07 pm

Nomes carinhosos

Todos os casais, têm nomes carinhosos com que se chamam mutuamente e que entra na esfera da intimidade. Nem todos são capazes de dizê-los em público, pois às vezes são um bocadinho parvos ou demasiado infantis. Há também quem chame o mesmo nome carinhoso a todas as suas conquistas, para não haver enganos, e é tudo corrido a ‘mor. Os casais que investem na relação gostam destas rituais e personalizam os nomes carinhosos, pois fazem parte da história do «nós».

Vamos partilhar estes nomes giros, nossos e de casais que conhecemos e que achamos especialmente divertidos ou originais?

Começo eu: puquinho! (daí a colecção de porquitos aqui em casa)!

Quem vem a seguir?

Tina
Então o meu marido e eu utilizamos o clasico “amor”.
Mas tenho aqui uns vizinhos que são mais imaginativos: ma puce, mon lapin,ma poule,mamour,e o indestronavel minou.
Conhecia um senhor que chamava a sua esposa com muito amor e carinho “minha cafeteira” hehehehe podia ser bem pior.
Gotinha
Eu chamo o mê Goto de pipoca.
Filipa
Eu chamo de Amor, é verdade, sou pouco imaginativa nestas coisas, mas sou tratada por Linda, e por Doce (que é o meu favorito!). Mas também te digo que, desde que me trate bem, pode chamar-me o que quiser, que eu respondo… ;))

 

 

Considerandos sobre o amor (72) 4 de Janeiro de 2008

Arquivado como: amor, considerandos sobre o amor — jacky @ 10:53 am

Amo-te e os seus significados

Quando dizemos: «Amo-te», será que quer dizer o mesmo para toda a gente? Será que o que eu quero transmitir é o que tu compreendes quando o ouves? E se respondes: «Também te amo», isso significa que sentes exactamente o que eu sinto?

A verdade é que estas duas simples palavras não podem abarcar todo um leque de sentimentos que emergem quando se quer traduzir o amor.

Amo-te pode ter vários significados. Vou deixar aqui alguns exemplos:

Quem é carente quer dizer antes «Ama-me».
Quem é medroso «Não me deixes».
Quem está ferido «Ama-me como os meus pais não me amaram» ou «Ama-me como os anteriores amantes não amaram».
Quem é narcísico «Ama-me para que me ame a mim mesmo/a ainda mais que antes».
Quem quer substituir alguém «Amo-te como deveria ter amado X me deixou ou perdi».

E tantos outros que poderás acrescentar ao teu gosto e segundo a tua experiência. Queres ajudar-me a completar esses significados?

 

Considerandos sobre o amor (71) 3 de Janeiro de 2008

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 7:33 pm

A energia do amor

O amor é a energia mais poderosa do mundo. Por amor, ganhamos asas, corremos mundos, fazemos o impossível, transcendemo-nos… Se isso é verdade, porque haverá então tantas relações falhadas e outras que nem sequer chegam a começar?

O amor com A maiúsculo não existe, aquele amor que se vê nos filmes, em que tudo é perfeito, a música toca sempre que se olham, as nuvens cor-de-rosa pairam à volta e há sempre um futuro indefinido num final em que viveram felizes para sempre. No mundo real, uma relação amorosa cria-se através de dois sentimentos distintos: aquele que eu sinto por ti e o sentimento que tu sentes por mim. A conciliação dos dois é que faz com que o amor se possa construir todos os dias. Não existe uma reciprocidade imediata.

Nos primeiros encontros, a maioria das vezes, o que vemos e sentimos nem sempre corresponde ao que o outro vê e sente. Por vezes, o que se pensa ser amor é apenas atracção e desejo. Outras vezes, parece haver amor mas a verdade é que um ama e o outro sente-se bem por ser amado e deixa-se andar. Muitas vezes, as relações não funcionam porque há um deles que não tem auto-estima. Quem não se ama em si mesmo e às suas qualidades, não é tolerante com os seus defeitos e falhas, não tem capacidade para amar outrem.

Acontece então que o medo tudo domina, castra a energia positiva do amor. E os medos do amor são tantos. É preciso abdicar daquele patamar de segurança e arriscar para podermos fruir a energia…

Quem nunca teve medo de amar?

 

Considerandos sobre o amor (70) 5 de Novembro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 10:44 am

A construção da felicidade

Por vezes, a felicidade parece estar tão inacessível. Os dias correm cinzentos, carregados de nuvens problemáticas que assombram o nosso bom humor. Vemos os outros mais sorridentes, mais soltos, mais animados, e nós não. Só vislumbramos pequenos raios de sonhos entre tensões e pesadelos. Pensamos no que se poderia ser a nossa vida se… Sentimo-nos impotentes, cansados e infelizes…

E se tentássemos dar a volta, mesmo que devagarinho? Começar por espantar o cansaço, mexendo-nos mais. Obrigar-nos a sair da apatia e gastarmos energias a deambular na rua, passear o cão, praticar algum desporto. Depois, começar a separar o trigo do joio i.e. repensar os sonhos e ver os que realmente são concretizáveis. Aceitar a realidade e abdicar dos devaneios impossíveis da adolescência. De seguida, vamos parar de comparar a nossa felicidade à dos outros. O que parece nem sempre é. Nem vale a pena pensarmos no que somos e no que temos comparado aos outros porque se ficará sempre a perder. E para finalizar, vamos deixar de nos criticar e de nos censurar. Precisamos de nos elogiar quando fazemos bem as coisas e de celebrar quando obtemos alguma vitória mesmo que seja pequena.

Vamos reaprender a felicidade?

 

Considerandos sobre o amor (69) 3 de Novembro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 6:22 pm

La plume est la langue de l’âme.
Miguel de Cervantès

Pena é uma palavra tão rica em significados. Tantas frases que podem ser inventadas a partir dos sentidos de pena. Tenho pena porque já sei que não me vou lembrar de todos! Haverá pena para tal falta? Pena de quem sofre ao me ler… Valerá a pena tentar? Se o teclado fosse uma pena, os dedos deslizariam ao correr de si mesma!

Mas não é dessas penas sobre as quais vou discorrer, mas sim daquela pena que se usa como objecto erótico, ao de leve sobre a pele nua. Porque só os dedos não chegam e é preciso um prolongamento ainda mais suave, ainda mais subtil, ver arrepios em crescendo sobre a nudez… Uma pena macia como a de uma avestruz ou uma pena mais áspera mas muito vistosa como a do pavão… Preliminares audazes a práticas de que Cervantes falava: A pluma é a língua da alma. Hmmm…  pena… língua… outra palavra tão sugestiva… Às vezes, é tão bom devanear ao correr da pena graças a uma simples palavra ligada a um número deste considerando…

Jacky (03.11.2007)

 

Considerandos sobre o amor (68) 25 de Outubro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 3:00 pm

«Pour ce qui est de l’avenir, il ne s’agit pas de le prévoir, mais de le rendre possible.»
Antoine de Saint-Exupéry

Muitas vezes, sentimo-nos infelizes com o presente por tanto sonharmos o futuro. Parece-nos tão distante na realização e tão próximo no mundo que precede a noite. É tão mais fácil ficarmos a viver nessa zona enevoada, a meio-termo, não se assumir nem uma coisa nem outra.

Muitas vezes, é difícil assegurar o presente porque precisamos de dispensar muita energia, envolvermo-nos demasiado para que o sonho se torne possível. É tão mais fácil entrarmos num cómodo mutismo, ficarmos amuados e recolhidos numa concha do que desculpar, esquecer e dar outra oportunidade no próximo dia a nascer.

Muitas vezes, o sonho não se concretiza porque o esforço de nos voltarmos para ele é maior do que aquilo que imaginávamos quando o quisemos viver…

 

Considerandos sobre o amor (67) 23 de Setembro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 11:14 am

A Geometria dos Afectos

Se os afectos tivessem forma, nunca seriam quadrados. Nos cantos dos quadrados, não devem ficar afectos arrumados. Os cantos são lugares sombrios que guardam afectos que não se conseguem assumir ou que perdemos e não queremos libertar.

Se os afectos tivessem forma, nunca seriam triangulares. Nos bicos dos triângulos, não devem ficar afectos espetados. São como lâminas que ainda ferem, afectos que doem, afectos que causam sofrimento e muita tristeza.

Se os afectos tivessem forma, seriam circulares. Os afectos que preenchem o ser humano são redondos, são energias circulares que provocam reacções em cadeia, elos de um gigantesco colar de amorizade que me ligam a ti, que te ligam a mim, que nos ligam a todos e todos um a um.

Os meus afectos são circulares e os teus de que forma são?

 

Considerandos sobre o amor (66) 29 de Maio de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor, jacky — jacky @ 8:08 pm

A construção dos afectos

Fred Slavin

O amor é como um puzzle. Todos os dias colocam-se peças no grande puzzle que são os afectos. Há dias em que encontramos peças que encaixam na perfeição. E há dias em que descobrimos que houve um engano, que há peças desirmanadas que não encaixam em lado nenhum. Ficamos a pensar que talvez o puzzle onde vivemos os últimos anos não é a paisagem onde queremos ficar o resto da nossa vida, que temos de mudar de puzzle porque aquelas peças que pareciam perdidas são exactamente aquelas que são a chave para a nossa felicidade. Urge a mudança e sabemos que não podemos adiar para sempre…

Este blogue chegou ao fim. A minha escrita também. Preciso de mudar de puzzle e de pele. Fui muito feliz neste lugar, nas minhas e nas vossas palavras. Obrigada por tudo. Até sempre…

Jacky (29.05.2007)

PS. Cumprindo com o que prometi, o amorizade não será apagado. Ficam os jogos, as trocas de ideias, os dias maus e os dias bons, as cartas que vos escrevi, os devaneios e os aparvalhanços, as músicas e os testes, as minhas e as vossas palavras, enquanto a Internet durar.

PS2. (18.06.2007) Como tem havido muitos comentários com palavras menos próprias relativas à minha pessoa e a este blogue, a partir de hoje, os comentários encontram-se em moderação. Peço desculpa a todos os meus amoramigos pelo sucedido, mas estou cansada de insultos…

 

Considerandos sobre o amor (65) 19 de Abril de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 4:55 pm

A narrativa da amorizade

Quando era pequenina e vinha passar férias a Portugal, ficava sempre na minha Tatá. Tatá é o nome carinhoso em Francês para tia e esta é uma tia muito especial: é minha tia-avó materna. Íamos à praia todos os dias, para o Molhe, onde a Tatá tinha barraca. Ao fim de tarde, o Tonton ia lá ter. Depois voltávamos todos juntos, jantávamos e eu fazia uma corrida com o Tonton para ver quem comia a sopa mais depressa. Eu ganhava sempre. Na verdade, ele deixava-me ganhar. Gostava de saltar os quintais que ficavam por trás das casas, ali na Constituição, e ir até à casa da Mina brincar. Brincava com as formigas que saíam por uma frincha. Dava-lhes água para não terem tanto calor. Mal sabia, na altura, que as afogava com tanto zelo. Não gostava de laranjas, por isso, a Tatá dava-me tanjas e eu toda contente comia as laranjas todas sem pestanejar. Ia ao cabeleireiro e, quando chegava a parte de pintar as unhas, eu também queria, mas de vermelho! Na altura, também adorava sapatos vermelhos. Ela lá me convencia a pintar de rosa e, outras vezes, a minha teimosia levava a melhor…

O momento mais feliz do dia era quando me ia deitar. Se estivesse lá a Tia Isilda, ensinava-me o Pai Nosso em Português e lá adormecíamos as duas. Se não estivesse, a Tatá sentava-se na minha cama e contava-me uma história. Às vezes, inventava e, no dia seguinte, pedia-lhe a mesma. A Tatá já não se lembrava e eu dizia: - Ó Tatá, ontem, não me contaste assim! A minha história favorita era de longe a da Carochinha, que se punha à janela, depois de encontrar uma moeda a varrer a cozinha, e ouvia aqueles animais todos a gritarem muito alto. Coitado do João Ratão, morto, no panelão…

Mais tarde, já morava no Porto e fiquei a estudar no Carolina Michaelis que é perto da casa da Tatá. Uma vez por semana, ia lá almoçar mas já não fazia corridas com o Tonton. Às vezes, ligava-lhe antes de ir almoçar e dizia: - Ó Tatá, posso levar uma amiga minha para almoçar? - E ela dizia sempre que sim.

A Tatá teve sempre tempo e paciência para mim. Teceu a minha infância de palavras e de personagens maravilhosas. Os meus pais não tinham tempo para isso. A Tatá não teve filhos, mas é como se fosse a avó que não tive…

A Tatá tem agora 86 anos e está muito doente no hospital. Tenho ido lá quase todos os dias vê-la, dizer-lhe que gosto dela, porque, daqui a uns dias, quando ela partir, também partirá essa parte da minha infância, tecida de palavras, que foi muito feliz…

 

Considerandos sobre o amor (64) 15 de Abril de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 11:40 pm

A tecnologia e a sedução… 

Estive a rever este video dos Hot Chocolate e fiquei a pensar que os conceitos vão mudando ao longo dos tempos. O que era sexy no tempo dos filmes a preto e branco ainda o será nos de hoje? Não se terá passado do 8 para o 80? Do proibido para o despudor total? Deixou-se de se ter privacidade. Qualquer um de nós pode ser fotografado e filmado sem o saber em momentos menos bons e pior ainda podem alterar as fotos e os filmes sem termos qualquer controlo sobre isso… Quase ficámos sem tempo e espaço para a intimidade. É quase como se o excesso de liberdade reflectisse um voltar à ditadura em que todos eram espiados sem saber bem por quem. Não gosto deste caminho que a tecnologia está a traçar para o Homem Novo. Tenho um certo receio que se perca a espontaneidade que é um dos ingredientes principais da amorizade…

O que é sexy para ti?

 

Considerandos sobre o amor (63) 19 de Março de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 11:03 pm

Os pequenos gestos

Charles-Schulz

Quantas pessoas se podem dar ao luxo de dizerem que são íntimos de heróis? De pessoas destinadas a grandes feitos? De pessoas que ganharam prémios valiosos? De pessoas que são famosos em todo o mundo? Muito poucos! E seremos menos felizes por isso? O que nos liga aos outros afinal? Não serão os pequenos gestos? Aquelas pequenas coisas que as pessoas fazem todos os dias e que mostram que estão presentes na nossa vida?

No meu prédio, mora muita gente, mas quase todos os dias me lembro de um vizinho que faleceu de repente de um ataque do coração. Não falava com ele mais do que falava com outros. Não era especialmente bonito nem era um orador nato. Não se destacava dos outros pelo tamanho nem pela força. Porém, todos os dias, recolhia as publicidades que as pessoas não levavam para casa, que simplesmente remetiam por cima das caixas do correio por comodismo, e levava-as para o papelão. Quase todos os dias, lembro-me do meu vizinho quando vejo as publicidades caídas das caixas do correio. Lembro-me dele, por causa dum pequeno gesto, embora não tenha dado os sentimentos à família quando faleceu nem de ter ido ao velório, porque não estava no Porto naqueles dias.

Benditos os pequenos gestos que não deixam cair no esquecimento aqueles que estimamos… E tu, que pequenos gestos recordas com saudade?

 

Considerandos sobre o amor (62) 2 de Março de 2007

Arquivado como: amizade, considerandos sobre o amor — jacky @ 1:46 pm

A matéria dos afectos

Rabi Khan

Esta semana, tive o prazer de materializar dois afectos novos. Embora se saiba que há muita gente mal-intencionada na Internet, não me posso queixar. Tenho conhecido pessoas muito interessantes graças a esse meio de comunicação, principalmente desde que tenho blogues. Talvez por ser amorizade, atraio os afectos facilmente. Posso inclusive gabar-me que tenho mais amigos do que dedos nas mãos, que dar aos outros é sempre retribuido mais tarde ou mais cedo. Cada dia que passa comprova-me que vivermos para o nosso umbigo limita a realidade e o próprio mundo. Gosto de olhar em frente e para os lados e ver os umbigos dos outros. Talvez por isso, as pessoas confiem em mim e gostem de conversar comigo. Acredito que todas as pessoas são únicas e que posso sempre aprender algo com elas e trocar experiências que nos façam enriquecer mutuamente. Tento dar um pouco de mim a todos que se aproximem de mim e recebo sempre muito em troca.

Esta semana, tive o prazer de materializar em olhares vivos e sorrisos meigos duas pessoas com quem me corresponde há uns tempos via email e devo dizer que é tão bom ser amorizade! :) Obrigada Alexandre e Ceres!

 

Considerandos sobre o amor (61) 26 de Fevereiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 10:47 am

O amor tem fim?

Helga Sermat

Quando acaba um relacionamento, poder-se-á dizer que acabou? Haverá fim no amor? Será que somos como um quadro negro onde se escrevem os afectos a giz e que podem ser apagados a qualquer momento? Será que somos como um céu anoitecido onde os afectos são estrelas que podem deixar de brilhar?

Talvez os afectos não acabem e apenas se transformem. Vão-se desvanecendo todos os dias um bocadinho. É como se o afecto fosse um pano imenso que se vá desfiando em cada momento mais um pouco. Um pano que se vai tornando tira e, depois fio, nunca se desintegrando totalmente. Os afectos não podem morrer porque fazem parte da nossa história pessoal. Os afectos cabem todos no coração, mas nós é que devemos tecer o pano afectivo que é a nossa felicidade…

 

Considerandos sobre o amor (60) 16 de Fevereiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 3:10 pm

Respeito

Egoísmo também é indiferença…

Entrámos na era dos shoppings. Passamos tempos infinitos dentro deles, a ver montras, a ver livros e a ouvir músicas, a experimentar roupas, a gastar dinheiro e a comer sem esforço. Aos fins de semana, entramos em transe hipnótico com tanta oferta de coisas e tanto crédito fácil à nossa disposição. Empurramos, carregados de sacos, quem estiver à frente. Não vemos mais ninguém. Finalmente, refastelados numas cadeiras da zona da alimentação, almoçamos ou jantamos. Puxamos o cigarro, alheados ao facto de haver crianças e carros de bebés a um metro de distância e gozamos o momento. Se alguém nos chamar a atenção porque calhamos de encontrar lugar sentado, nos míseros dois metros quadrados dos não fumadores, ficamos possessos. Que falta de respeito pelo nosso prazer narcísico! Voltamos para casa cheios de embalagens. Mais uma bateladas de coisas para o lixo. Reciclar dá muito trabalho… Acendemos todas as luzes, todas as televisões da casa para não perder dois segundos que sejam entre divisões da casa. Aquecedores no máximo com janelas abertas. Lavamos os dentes com água sempre a correr, uns litros a mais ou a menos não fazem diferença. Finalmente, deitamo-nos convencidos que somos os donos do mundo e que amanhã será mais um dia dedicado a nós, principalmente a nós…

Respeito também é amor.

Estamos no shopping em dias frios e chuvosos e no parque em dias quentes e amenos. Apreciamos o barulho do vento nas folhas das árvores onde nunca escreveríamos mensagens, como nunca esfaquiaríamos a pele de um amigo. Gostamos de andar descalços na praia sem restos de vidros de garrafas de cerveja ou embalagens de plástico indestrutíveis. Gostamos da espuma branquinha sobre tons verdes e azuis de mar, sem preservativos a boiar. Olhamos em frente e vemos as pessoas que se cruzam connosco. Desviamo-nos de quem está distraído. Antes de sacar do cigarro, pensamos nos que nao fumam nem têm prazer em absorver passivamente o nosso fumo e adiamos para mais daqui um pouco. Em casa, separamos o lixo. Só acendemos as luzes necessárias e os aquecedores que precisamos. Não deixamos a água a correr nem as torneiras a pingar. Dói-nos na alma saber que há crianças que não morreriam de sede se não desperdiçássemos tanta água. Finalmente, deitamo-nos preocupados com o aquecimento global do planeta e pensamos que temos de ir a Veneza e às Maldivas antes que se afundem definitivamente e que amanhã será mais um dia dedicados aos outros, a nós e ao respeito pela beleza do mundo que tanto amamos…

 

Considerandos sobre o amor (59) 25 de Janeiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 3:51 pm

Almas feridas

Duas almas feridas encontram-se. Reconhecem a mesma dor no olhar, um certo desânimo inquilino do coração. Habituaram-se à solidão, ao vazio reinante, mas não se conformaram.

Duas almas feridas encontram-se. Reconhecem em si o desejo de mudança. Estão prontas para uma ordem de despejo. Precisam de novas emoções: de calor, de batimentos rápidos, de desassosego.

Duas almas feridas encontram-se, prontas para se fecharem, não em si mesmas, mas uma na outra…

 

Considerandos sobre o amor (58) 22 de Janeiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 1:56 pm

Sans la parole, le plaisir de l’amour diminue au moins de deux tiers.
Giovanni Casanova

Não consigo conceber o amor e até o prazer apenas baseados nos sentidos. De que nos serve sentir se não podemos partilhar falando?  Seria reduzir apenas ao corporal e abdicar do intelectual. Degustar um prato especial é um deleite que guardamos apenas para nós próprios? Apreciar uma bela paisagem, um olhar apaixonado, e não o transpôr através de uma fotografia ou de uma memória? Sentir a macieza do veludo e a quentura dos raios de sol num dia de Inverno e esquecer?

A palavra às vezes nada quer dizer, nada transmite. O tom de voz é que reconforta, acarinha, enche-nos as medidas. Outras vezes, a palavra traz recordações guardadas em folhas de árvores outonais, agora renascidas na Primavera da memória. Ajuda a assentar dúvidas e a desenvolver o próprio amor…

William Debilzan

 

Considerandos sobre o amor (57) 17 de Janeiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 9:21 am

A paixão: Eros e Philia.

Bill Stephens

Geralmente, associamos paixão à paixão amorosa: Eros. É uma quase obsessão por uma pessoa, um querer estar com essa pessoa que nos faz esquecer todas as outras à face da terra. É algo excessivo e demasiado envolvente. Mas será que só existe a paixão no amor?

Quando me envolvo num projecto que gosto, com uma nova amizade, com uma nova compra que desejei, sinto-me apaixonada. Polarizo tudo à volta do objecto do meu desejo. Se há um tema que me entusiasme, pesquiso tudo e tenho sede em aprender tudo. É como se quisesse possuir toda a informação para a conseguir guardar.

Contudo, não sou avarenta e gosto de transmitir o que aprendo. É aqui que entra a Philia. Para quê guardar só para nós de forma egoísta, o que poderá tornar os outros felizes? Talvez por isso me tenha tornado professora.

E depois, apaixono-me por outro tema e vou esquecendo os pormenores do outro que me entusiasmou, sem nunca esquecer totalmente. Tudo o que se aprende com paixão, permanece e é assim que deveria ser o ensino: envolvido no entusiasmo do aluno…

Todos nós precisamos de viver com paixão: eros e philia. Primeiro, no sentido de querer possuir e preservar. Depois, no sentido de dar e partilhar. Se ficarmos apenas em eros, nunca seremos capazes de deixar ir em liberdade quem amamos com medo de perder. Mas a que preço? Quem está preso acaba sempre por esmorecer. É construir a nossa felicidade sobre a infelicidade dos outros. Na verdade, possuir é apenas uma ilusão temporária. Só se pode ter o desejo de regressar quando já se partiu…

 

Considerandos sobre o amor (56) 16 de Janeiro de 2007

Arquivado como: considerandos sobre o amor — jacky @ 4:34 pm

As novas mulheres submissas

Uma americana chamada Laura Doyle escreveu um livro que se tornou rapidamente um best seller: the surrendered wife

Preconiza nesse livro que as mulheres escolheram o caminho errado quando se tornaram feministas e começaram a tratar os homens como umas crianças irresponsáveis nas quais era impossível confiar. Isso fez com que começasse uma guerra radical entre mulheres e homens, onde cada um tentava manter o controlo do relacionamento. Assim, havia brigas todos os dias que causavam mágoas e depois azedumes. Quando a autora decidiu finalmente render-se e deixar que o marido pudesse vestir o que lhe dava na real gana e enganar-se no caminho sem o criticar, ou seja, tratá-lo como um companheiro e amigo, o seu relacionamento melhorou substancialmente. No mesmo livro, ela aconselha as mulheres a pedir desculpa pelas discussões, para o deixar gerir o dinheiro da casa e até de fazer amor uma vez por semana mesmo sem vontade.

Devo dizer que fiquei um pouco aparvalhada quando soube que um livro destes poderia ser um best-seller. Os americanos têm destas coisas um pouco estranhas. Nós Europeus, penso que nunca chegamos a este abismo nos relacionamentos. Hoje em dia, penso que tanto o homem como a mulher são responsáveis pela casa, pela família e pelos filhos. Também penso que não pode haver um relacionamento estável e duradouro que não assente em amor mas também em amizade, respeito mútuo e muito diálogo. Por isso, não sei se este livro aqui teria muito sucesso. Não que haja desequilíbrios relacionais em Portugal, mas principalmente porque estamos mais virados para outros tipos de leitura.

E tu, o que é que achas?