Dr. Rui
Desde que nasceu a Sara há cerca de uma semana, que as palavras bailam cá dentro, palavras que precisam de ser partilhadas…
A nossa relação médico-paciente não começou da melhor forma, pois devido a motivos vários a minha gravidez foi vigiada apenas à distância, uma distância de 300 km, pois mudei-me há pouco para a capital e fiquei sem referências nenhumas, sentindo-me desenraizada de vinte e seis anos de relações familiares, amigos e contactos vários, incluindo os meus médicos. Sou famosa por ser respondona mas também por ser amorizade, uma pessoa que valoriza os laços afectivos. A minha ginecologista-obstetra do Porto, a Dra. Isabel Terroso, é uma médica excepcional e era difícil para mim ter de prescindir dela. Fui fazendo os exames aconselhada pela minha amiga Carmo, (para quem terei de escrever uma carta em breve…) e pelas minhas amigas virtuais do flickr. E foi esse cenário que encontrou quando fui à primeira consulta… Claro que levei um raspanete seu (e merecido) parecia que era irresponsável e que não iria cumprir aquilo que me pedisse para fazer. Mesmo assim deu-me o benefício da dúvida e ainda bem! Conforme ia fazendo os exames necessários e mostrando que afinal não éramos irresponsáveis, a nossa relação começou a melhorar. Sentia-me segura e confiante e a gravidez começou a correr melhor.
Porquê escrever-lhe esta carta? Poderia dizer-lhe que lhe estou infinitamente grata pela forma como me tratou nas consultas e no parto (porque é verdade) mas não é esse o motivo pelo qual precisava de escrever esta carta. As palavras que quero fixar aqui na tela são palavras de admiração.
O que significa admirar? É encontrar em alguém qualidades, atributos e/ou comportamentos que achamos superiores a nós mesmos e à maioria das pessoas.
Uma das qualidades que eu mais admiro em alguém e está a cair em desuso, é a compaixão, que é ser-se compreensivo e mostrar empatia pelo sofrimento alheio. Penso que é uma qualidade que deveria ser inata em todos os médicos, mas sabemos bem que não é assim… Felizmente para mim e para todas as mulheres que tem acompanhado, desde que se formou, que mostra ser compassivo. Ser-se ginecologista-obstetra não deve ser uma especialidade fácil, principalmente quando se trabalha num bloco de partos, urgências após urgências. Durante a gravidez, tirando algum mal-estar e alguns problemas invulgares, tudo corre bem. Contudo, durante o parto, qualquer mulher está no seu pior: transpirada, gemendo ou gritando de dor, esforçando todo o corpo a algo de violento e brutal, chorando de desespero, entrando até numa certa inconsciência ou até estado traumático, agarrando-se ao que se pode, metendo as mãos onde não deve, reclamando e suplicando para que aquela dor simplesmente acabe. Ver dezenas de mulheres todos os dias neste estado pode tornar os médicos, os enfermeiros e os auxiliares indiferentes ou até mesmo impacientes perante a dor. Porém, não é o seu caso. Foi sempre educado, paciente, preocupado, generoso, atento, prestável, respondendo sempre aos meus sms ao longo da gravidez e excepcionalmente compassivo durante o parto. Embora não parecesse, pois nem sempre consegui colaborar ao que me era pedido, tentei dar o meu melhor porque me senti segura e compreendida, porque sabia que também ia dar o seu melhor para trazer ao mundo a minha filha e é isso que lhe queria dizer nesta carta, queria agradecer-lhe a sua dedicação a mim e a todas as mulheres que foram, são e serão suas pacientes.
Pronto. Isto não é nenhuma despedida. É apenas uma carta e já sabe, vá contando com os meus sms aparvalhados e comigo daqui a umas semanas na CintraMédica.
Um beijinho
Jacqueline Lima
Links úteis onde encontrar o Dr. Rui Viana













