Amorizade

Amor + Amizade - Termo de Luandino Vieira

Carta ao meu obstetra 23 de Setembro de 2008

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 4:55 pm
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Dr. Rui

Desde que nasceu a Sara há cerca de uma semana, que as palavras bailam cá dentro, palavras que precisam de ser partilhadas…

A nossa relação médico-paciente não começou da melhor forma, pois devido a motivos vários a minha gravidez foi vigiada apenas à distância, uma distância de 300 km, pois mudei-me há pouco para a capital e fiquei sem referências nenhumas, sentindo-me desenraizada de vinte e seis anos de relações familiares, amigos e contactos vários, incluindo os meus médicos. Sou famosa por ser respondona mas também por ser amorizade, uma pessoa que valoriza os laços afectivos. A minha ginecologista-obstetra do Porto, a Dra. Isabel Terroso, é uma médica excepcional e era difícil para mim ter de prescindir dela. Fui fazendo os exames aconselhada pela minha amiga Carmo, (para quem terei de escrever uma carta em breve…) e pelas minhas amigas virtuais do flickr. E foi esse cenário que encontrou quando fui à primeira consulta… Claro que levei um raspanete seu (e merecido) parecia que era irresponsável e que não iria cumprir aquilo que me pedisse para fazer. Mesmo assim deu-me o benefício da dúvida e ainda bem! Conforme ia fazendo os exames necessários e mostrando que afinal não éramos irresponsáveis, a nossa relação começou a melhorar. Sentia-me segura e confiante e a gravidez começou a correr melhor.

Porquê escrever-lhe esta carta? Poderia dizer-lhe que lhe estou infinitamente grata pela forma como me tratou nas consultas e no parto (porque é verdade) mas não é esse o motivo pelo qual precisava de escrever esta carta. As palavras que quero fixar aqui na tela são palavras de admiração.

O que significa admirar? É encontrar em alguém qualidades, atributos e/ou comportamentos que achamos superiores a nós mesmos e à maioria das pessoas.

Uma das qualidades que eu mais admiro em alguém e está a cair em desuso, é a compaixão, que é ser-se compreensivo e mostrar empatia pelo sofrimento alheio. Penso que é uma qualidade que deveria ser inata em todos os médicos, mas sabemos bem que não é assim… Felizmente para mim e para todas as mulheres que tem acompanhado, desde que se formou, que mostra ser compassivo. Ser-se ginecologista-obstetra não deve ser uma especialidade fácil, principalmente quando se trabalha num bloco de partos, urgências após urgências. Durante a gravidez, tirando algum mal-estar e alguns problemas invulgares, tudo corre bem. Contudo, durante o parto, qualquer mulher está no seu pior: transpirada, gemendo ou gritando de dor, esforçando todo o corpo a algo de violento e brutal, chorando de desespero, entrando até numa certa inconsciência ou até estado traumático, agarrando-se ao que se pode, metendo as mãos onde não deve, reclamando e suplicando para que aquela dor simplesmente acabe. Ver dezenas de mulheres todos os dias neste estado pode tornar os médicos, os enfermeiros e os auxiliares indiferentes ou até mesmo impacientes perante a dor. Porém, não é o seu caso. Foi sempre educado, paciente, preocupado, generoso, atento, prestável, respondendo sempre aos meus sms ao longo da gravidez e excepcionalmente compassivo durante o parto. Embora não parecesse, pois nem sempre consegui colaborar ao que me era pedido, tentei dar o meu melhor porque me senti segura e compreendida, porque sabia que também ia dar o seu melhor para trazer ao mundo a minha filha e é isso que lhe queria dizer nesta carta, queria agradecer-lhe a sua dedicação a mim e a todas as mulheres que foram, são e serão suas pacientes.

Pronto. Isto não é nenhuma despedida. É apenas uma carta e já sabe, vá contando com os meus sms aparvalhados e comigo daqui a umas semanas na CintraMédica.

Um beijinho

Jacqueline Lima

Links úteis onde encontrar o Dr. Rui Viana

CintraMédica

Cuf Descobertas

Hospital São Francisco Xavier

 

Carta a quem me faz falta 1 de Julho de 2008

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 11:47 am

Já que não estás mais neste mundo para ouvir as palavras que ficaram presas no meu coração, deixa-me escrevê-las para libertar as frases e as histórias que já não te poderei contar, como quem apanhou beijinhos à beira-mar toda a sua vida e as devolve agora ao mar…

Sabes o quanto me fazes falta? Eras o peso que fazia equilibrar a balança dos meus dias difíceis. Eras a cafeína que dava energia às minhas horas lentas. Eras o açúcar que dava sabor ao bolo da minha vida.

Agora que já não estás aqui para temperar as minhas emoções e sentimentos, sinto-me vazia e não consigo preencher essa solidão que me submerge, quando acordo todas as manhãs sabendo que não voltarei a ver-te, cheirar-te, sentir-te…

Sei que os outros não compreendem porque não supero a tua ausência, mas como explicar-lhes? Como fazer sentir no coração dos outros aquilo que só o meu abrange? Não sei quanto tempo se vai arrastar o tempo atrás desta saudade que não consigo superar. Por isso, escrevo-te esta carta, porque mesmo não existente, és a única que entenderá…

Sabes, fazes-me falta…

( jacky, 01.07.2008 )

 

Carta a um amigo cego-surdo-mudo 5 de Dezembro de 2007

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 8:14 pm

Amigo

Sei que não vais ler esta carta porque estás cego para tudo o que ela te impede de ver. Sei que não a vais ouvir porque, mesmo que ela te fosse lida, não a quererias escutar. Sei que por ventura se chegasse a ti, não responderias porque ela te enfeitiçou a vontade e as palavras.

Amigo

Sei que não estás em ti, que o que dizes não vem lá do fundo. Sei que o que não dizes foi silenciado pela apatia em que te marinaram. Sei que te sentes infeliz por não te reconheceres a ti próprio.

Amigo

Sei que vives num dilema, que escolhes o mal menor em vez do bem melhor. Sei que pensas ter feito a melhor escolha protegendo o elo mais fraco da cadeia dos teus afectos.

Amigo

Sei que te estás a afastar de quem te quer bem por achares que há quem te queira mais. Sei que entraste num processo que pensas não ter retorno. Sei que a falta de certos afectos te deixam desvairado embora digas que não.

Amigo

Um dia, vais acordar desse pesadelo e vais ter de recomeçar a tua vida, mais uma vez. Um dia, vai-te custar abrir os olhos e ver, destapar os ouvidos e escutar, abrir a boca e deixar sair as palavras acorrentadas. Um dia, vais pensar que ninguém estará do teu lado, mas estás enganado. Quem gosta de ti, só está à espera que despertes de novo para a vida. Quem gosta de ti, está preparado para recolar os bocados, recolher as cinzas, esquecer o que já lá vai.

Amigo

Quando chegar esse dia, cá estarei, aquela que pensas ser a mais improvável das tuas amigas…

Acorda!

Jacky (05.12.2007)

 

Carta a um amigo Natalfóbico 12 de Dezembro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 6:00 pm

Amigo,

Dizes de ti mesmo que és um anti-conformista e que detestas qualquer tipo de festas em que haja obrigatoriedade de se fazer coisas. Dizes que o Natal é um disparate porque as pessoas compram coisas para dar a quem gostam e não gostam, que gastam o que têm e o que não têm, e que até são capazes de passar dificuldades o resto do ano para enfardar à bruta durante as festas de Natal e Ano Novo. Dizes que não estás para estar presente no dia do encontro familiar ou dos jantares de natal instituidos em que todos fingem por uns momentos que se dão todos bem e que nunca quiserem tramar-se nas costas, nem se mentiram, nem nunca te trataram como um idiota. Dizes que não estás para ouvir música sentimentalóide de Natal, num mundo que finge a Paz por uns dias quando o que querem é todos dominar o mundo. Dizes que não estás para gastar um dinheirão numa só noite em roupas compradas apenas para aquele momento e quase a asfixiar no meio de multidões que pretendem divertirem-se e excederem-se naquela noite para uma abstinência de todo um ano.

O que dizes é bem verdade. Não deveria haver dias obrigatórios de se dar prendas, de se ouvir músicas pacíficas, de se estar em convívios forçados e de se pretender ser aquilo que não se é. Também é verdade que as pessoas se excedem e que se endividam escusadamente quando não deviam. O ideal era que as pessoas se dessem bem todo o ano e que não tivessem de agir de forma contrária à sua natureza para agradar aos outros, mesmo quando não merecem. Mas a viver em sociedade tem o seu preço e as coisas não funcionam assim…

Às vezes, fico a pensar de como te deves sentir só, profundamente só, quando olhas à tua volta e vês toda a gente serena e bem humorada, a comprar coisas e a contactar com pessoas que gostam e a serem contactadas por muita gente. Toda essa afectividade que gira à volta do Natal faz-te sentir ainda mais excluido neste mundo moderno tão despersonalizado.

Às vezes, quando te vejo alheado de tudo, fico a pensar se não estarás a recordar os Natais da tua infância em que as luzes do pinheiro piscavam mais brilhantes, rodeado daqueles risos e palavras de entes queridos que já se foram porque simplesmente já faleceram ou porque a vida os levou para longe. Mas será que era assim mesmo como te recordas? É que em criança, não questionamos as coisas nem reparamos nos olhos tristes dos outros porque estamos concentrados à volta dos presentes e da alegria de estar com a família reunida…

Às vezes, quando te vejo assim fechado sobre ti mesmo, fico a pensar que não gostas é de mudanças, que não queres simplesmente quebrar certas barreiras que construiste à tua volta para não sofrer, que é mais fácil assim, não deixar ninguém entrar, ficar preso ao passado, não criar laços novos no presente…

Amigo independente, porque não fazes algo diferente este ano? Uma viagem? Uma reunião com outros que se sentem igual a ti (e são muitos, acredita!)? Um mimar-te, um jantarzinho especial só para ti, com o filme que queres muito ver ou o livro que queres muito ler? E abre-te, assim devagarinho, vais ver que não dói assim tanto, que há sempre alguém por perto que quer entrar e está à porta…

Um abraço de amorizade

jacky (12.12.2006)

 

Carta a uma amiga esponja afectiva 10 de Novembro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 1:28 pm

Amiga,

 

Escrevo-te esta carta para te falar de ti, do que tenho vindo a observar dos teus comportamentos que te fazem infeliz. Passas os dias, a submeter-te às ordens dos outros sem nunca protestares, a cumprires com os teus deveres sem nunca exigires os teus direitos, a estar ao serviço dos outros esperando que reconheçam o teu valor.

 

Nos amores, perpetuas essa necessidade de reconhecimento, despersonalizando-te. Fazes o vazio à tua volta para viver apenas para ele, para o satisfazer em tudo. Chegas inclusive a renegar as tuas desilusões para que ele esteja sempre bem. Pensas que o amor e o respeito dele são a cura para esse mal-estar que sentes.

 

Sei que te sentes angustiada e ansiosa, que tens tendência para criar demasiadas expectativas relativamente às pessoas que achas importantes e também às outras que te rodeiam no dia a dia. No fundo, tens pavor à rejeição e ao abandono. Gostar de alguém, querer estar com ele, sentir-se plena com o seu olhar pousado em si, é saudável, não se pode é concentrar todo o esforço e todos os pensamentos à volta de uma ou duas pessoas, como se o «eu» fosse o deserto e elas o oásis.

 

Essa dependência que crias à volta de certas pessoas faz-te sofrer e faz com que os outros se sintam desconfortáveis contigo, porque começas a controlá-los para verificar se ainda gostam de ti: o que dizem, o que não dizem, onde andam e com quem andam, se dão mais atenção a este e a aquele do que a ti. Se telefonam e não adivinham o que queres, fazes senti-los culpados. Se não telefonam porque, no fundo, já sabem que vão ser recriminados nos silêncios, sentes-te infeliz. Como te dás em demasias, achas natural que haja retribuição dos outros.

 

Infelizmente, vivemos num mundo cada vez mais narcísico onde as pessoas vivem em constante competição. Cada vez menos, há espírito de grupo e por isso o normal é que nem reparem na pessoa fantástica que tu és.

 

Quanto ao amor, é realmente a cura para essa mágoa que carregas desde pequena, para essa falta de cuidados e de atenção na infância, para as carências que têm vindo a aumentar na tua vida, mas o amor por ti mesma! Na verdade, não precisas da aprovação e do respeito de ninguém para seres feliz. Precisas é de gostar de ti e de te assumir como pessoa querida e bem formada que tu és. Não há cavaleiros andantes que nos salvam do marasmo da depressão. Ninguém é perfeito. Vai haver sempre crises nas relações, dias em que não há pachorra, momentos em que se prefere estar sozinho do que com os outros, isso não quer dizer que o amor e a amizade tenham acabado.

 

Já reparaste que o amor atrai o amor? As pessoas que gostam de si mesmas e que se sentem bem fisicamente e espiritualmente atraem pessoas como um íman. Mas os pedintes do amor atraem principalmente a compaixão e a pena. É isso que queres para o teu futuro? deixa lá as esponjas no fundo do mar…

 

Ficares fechada em casa com medo de te envolveres com alguém, com medo de repetir de novo o mesmo padrão de comportamento, não te serve de nada. A rejeição e o fracasso fazem parte da vida. Não vivas na clausura. Apaixona-te pela vida, por passatempos, por actividades. Quem se apaixona pela vida, apaixona os outros e tu tens todas as potencialidades para gerares paixões…

 

Jacky (10.11.2006)

 

Carta a uma amiga que acredita no Destino 6 de Novembro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 5:02 pm

Amiga,

Acreditas que a tua vida está escrita no grande livro do Destino, que tudo está traçado: passado, presente e futuro e ficas assim à espera que a tua vida se cumpra como está determinado.

Acreditas que aquele homem que já foi teu e que o Destino quis apartar de ti, que o mesmo Destino o há-de trazer de volta. E ele vem vindo. Dá-te migalhas do seu tempo e contentas-te assim porque o que será será…

Amiga, achas mesmo que isso é suficiente? Que o Destino existe? Não achas que o que ele tem para te dar daqui a uns anos já não te irá contentar? O teu interior anda tão pobre que não mereças um Homem com H, que tenha disponibilidade efectiva e afectiva para ti?

O Destino existe sim: vários destinos a todo o momento que se apresentam a ti. A todo o momento, o Destino é uma encruzilhada com vários caminhos e tu é que escolhes qual o rumo a seguir. Claro, que podes ir na corrente, seguir o caminho por onde todos vão, ou deixares-te levar por onde os outros querem que tu vás. E mesmo assim, não fazer nada é uma escolha.

Amiga, gosto de ti e fico triste de te ver assim, parada nesse beco sem saída. Vira-te e volta para trás. Caminha até ao próximo cruzamento e escolhe…

 

Jacky (06.11.2006)

 

only you ca choose

 

Carta a todos os cornudos (especialmente aos estorricados) 8 de Setembro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 2:32 am

Sei que não fica bem escrever uma carta aos traídos e de chamá-los cornudos. Sei que não é aceitável vê-los sem ser como uns coitadinhos e não é isso que eu pretendo com esta carta. Sei que devia continuar a escrever considerandos sobre o amor porque é disso que trata a amorizade, mas hoje não!

Quando penso em traição, lembro-me sempre duma anedota (talvez nem tão divertida assim) sobre os tipos de cornudos:

1. Há o corno manso, que é aquele que não se importa, que se calhar até gosta de o ser e por isso não sofre. Não sente ciúme nem posse nem tem medo de perder aquele(a) que diz amar. Se calhar, até lucra em fechar os olhos: tem casa, tem jóias, tem estabilidade, tem uma vida que parece perfeita e isso é o que mais importa. Há muitos mais cornos mansos do que se imagina porque coniventes com a situação e porque ficam camuflados na vegetação familiar.

2. Há o corno furioso, que é aquele que é corno e enfurece-se com isso. É aquele que enche páginas dos jornais a escândalos, que pratica crimes passionais em nome do amor, que faz cenas, que insulta, que fere, que denuncia os factos a todos, que se vinga e que mata. É aquele que prepara a vingança, servida a frio, que se atira para o chão e se rasga todo, que corta o pirilau ao tipo ou atira ácido à cara dela para que mais ninguém possa ter proveito. É o cornudo que se ama mais a si próprio e ao seu próprio orgulho do que alguma vez amou o outro…

3. Finalmente, há o corno estorricado. É aquele que ama, que confia no outro de tal forma que era capaz de pôr as mãos no fogo pela fidelidade do outro e fica bastante estorricado! Esse é o que provoca duas reacções distintas nas pessoas: ou ficam com «peninha» ou então gozam chamando-o de coitadinho porque não reagiu à furioso, porque não teve tomates para reagir, porque é um papalvo a confiar assim tão ingenuamente…

Tanto uma reacção como a outra são disparatadas. Na verdade, a respeitar um corno que seja, é o corno estorricado que mais admiro. É alguém que é apanhado desprevenido, que pensa conhecer bem a pessoa que ama e afinal se engana. É aquele que vivia tranquilo e viu o seu mundo desmoronar-se. É aquele que deprime quando perde o afecto do outro. E mais, é aquele que fica profundamente magoado com a mentira e com a falta de honestidade. Não se amavam? Não foram sempre amigos? Não falavam sobre tudo? Então porquê? Porquê essa traição? Porque não falaram antes que isso acontecesse? Porquê chegar a esse ponto de não retorno em que a relação já não pode ser reconstruída?

Pior que saber que o outro deseja outro corpo, é saber que seguiu a solução mais fácil. Em vez de conversarem e tentarem colmatar as falhas, apagar as frustrações, escolhem o caminho da infidelidade, a placa que diz The end, sem sequer dar ao outro uma hipótese de escolha nessa decisão. É tão mais fácil ser-se apanhado em flagrante numa cama qualquer com outro corpo, do que assumir que também se falha numa relação, que simplesmente se deixou de amar com o tempo, as discussões, a falta de compreensão e de carinho. É tão mais inebriante fazer sexo no carro num parque de estacionamento com o outro corpo do que voltar para casa para o que ainda ama e continua a cuidar das coisas para que tudo esteja bem, mas que está com problemas, deprimido, em baixo de forma, ou até doente. É tão mais fácil sair assim duma relação, à bruta, porque assim já não precisa de tentar recolar os pedaços dum amor despedaçado.

Na verdade, quem devia ser chamado de coitadinho é aquele que trai, porque não tem tomates, porque se trai uma vez, poderá voltar a trair o corpo do parque de estacionamento por outro num sítio ainda mais excitante. Quem mostra ser digno de respeito, é o traído que, depois do marasmo de ver o seu futuro cair por terra, volta a reerguer-se. É aquele que poderá seguir em frente, de cabeça erguida porque foi o que mais amou. É aquele que sai mais forte depois do sofrimento, que saberá depois valorizar o que é essencial, que estará mais atento aos sinais, que saberá relacionar-se de novo com alguém de forma sadia.

Por isso, cornudos estorricados recentes, não fiquem aí com vontade de morrer, não vale a pena querer amar alguém que não vos quer! Rastejar não serve de nada, tentar mudar para recolar os bocados também não. Não se culpabilizem por não terem sido cegos. Como o povo português costuma dizer: Deus cose direito por linhas tortas! Aceitem a dor como um cheque em branco para felicidade a dobrar no futuro. Só se dá valor ao que se tem, quando um dia já se perdeu tudo…

Cornudos estorricados de todo o mundo, deixo-vos esta carta com muita amorizade e agora não percam mais tempo a chorar pelas queimaduras, a pele tem uma capacidade de renovação que muito vos irá espantar. Sigam em frente, longe das lareiras!

Jacky (08.09.2006)

 

Carta a uma amiga com uns quilos a mais… 5 de Setembro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 12:06 am

Amiga,

Que se passa contigo? Parece que os quilos que pensas ter a mais no teu corpo são impedimento para a tua felicidade e para o pleno desabrochar da tua personalidade! Não achas que te estás a deixar influenciar em demasia pela publicidade e pelos modelos esqueléticos da moda de hoje?

O que é que é mais agradável para o olhar: uma estátua grega de mulher com barriguinha e curvas redondas ou uma modelo trinca-espinhas, talvez até, anoréctica? O que é que atrai mais um sorriso luminoso num lindo rosto ou um corpo supostamente perfeito, retocado no photoshop?

Amiga, achas mesmo que os homens preferem essas mamalhudas de silicone ou esses lábios injectados de silicone a um corpo de mulher genuíno? Achas que alguém que te ame de verdade está apenas concentrado nas pequenas imperfeições que fazem parte da tua história corporal? Mais! Não achas que se por acaso te exigisse cabelos sempre impecáveis, rosto sem olheiras nem rugas, nariz de fada e corpo de boneca Barbie também não poderia exigir o mesmo de volta mas em corpo de Ken?

Já te olhaste bem ao espelho, amiga? Consegues ver o que está para além dele: essa tua personalidade brilhante, os teus olhos vivazes, o teu sorriso luminoso, o teu sentido de humor, a tua inteligência e a tua sensibilidade? E se ele não vê isso, perguntas tu? Ora, se ele não é capaz de enxergar além do espelho é porque não te merece.

Já reparaste que não é através do olhar dele que te tornarás mais bonita? Tens que ser mais tolerante contigo mesma, aceitar esse corpo que é teu e aprender a amar essa alma que é tua, porque sim, apenas, porque sim!

Amiga, eu acho-te muito bonita. Não deixes que um qualquer te menospreze e te encha de um vazio que é só dele por causa dumas imperfeições e de uns quilos a mais. Há outros homens que não precisarão nunca de óculos com lentes de redução para te ver como tu és: linda!

Um beijinho de amorizade!

 

Carta a uma amiga solitária 14 de Agosto de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 2:35 pm

Querida amiga,

Sei o que é estar a viver na mais profunda das solidões: estar rodeada de pessoas e ninguém nos compreender; estar no maior desconforto sentada no sofá mais fôfo; estar a passar férias na cinzentice em dias solarengos. Também sei que tu sabes que sentir-se só é um estado de alma, que aquela pessoa em particular que te faz falta não preenche esse vazio, embora tenhas a tentação de pensar que sim…

Há momentos na vida em que entramos em crise existencial, em que precisamos de ficar enrolados como caracol na sua carapaça para resolver amarguras e tristezas passadas. Há momentos em que é necessário parar para compreendermos o nosso próprio valor e começarmos finalmente a gostarmos de nós mesmos e não vivermos à espera da aprovação incondicional daquela pessoa. Há momentos em que temos de reflectir sobre essa ansiedade que nos mói o corpo e a alma, de onde vem e porque persiste em perseguir-nos…

Amiga, volta atrás no tempo, desenterra o que for preciso, volta a abrir as cicatrizes mal fechadas, chafurda na lama e depois, quando tiveres chorado todas essas dores passadas, renasce das cinzas tal como uma fénix!

Amiga, se precisares de mim, já sabes…

Um abraço de amorizade

Jacky

 

Carta a uma (futura) amiga 19 de Maio de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 4:29 pm

Amiga (futura)

Sabes, nem sempre a vida corre como queremos. Às vezes, temos de tomar decisões importantes para sermos felizes, mas temos medo da mudança. Às vezes, queremos mudar, mas temos medo de sermos incompreendidos. Às vezes, queremos voltar para o mar e deixamos que nos amarrem ao cais. Nem sempre quem está no porto, sabe qual é a melhor rota para chegarmos ao destino. Só tu é que sabes!

Uma das coisas que aprendi durante estes anos, é que não se consegue agradar a gregos e a troianos. Também aprendi que há pessoas da nossa envolvência que nunca estão satisfeitas connosco (talvez consigo mesmas, principalmente) por mais que nos esforcemos…

Até pode ser que a rota que escolheste te faça andar à deriva por uns tempos. Até pode ser que todos abandonem o barco menos tu. Até pode ser que percas o mapa, a bússola e o leme, mas por favor não fiques parada nesse cais à espera duma aprovação que não chegará jamais. Segue em frente! Um dia, vais olhar o horizonte e vais gostar do que irás ver…

Um beijinho de amorizade :)

Jacky (19.05.2006)

 

Cartões amorosos IV 8 de Fevereiro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 4:56 pm

Eis o puzzle de amorizade: escolher um haiku da jacky, escrever uma letra por cada coração dum lado, um número do outro para se colocarem por ordem. Meter num envelope e enviar…

Não ficou giro?

 

Cartões amorosos III 8 de Fevereiro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 4:20 pm


Hoje nas aulas…
As pessoas que dizem que os miúdos de hoje não gostam de poesia não sabem do que estão a falar. O que eles não gostam é de analisar poesia até a dissecação total do mesmo. Se for saboreado como um bombom, ficam a ler com gosto, distraídos de tudo o resto. Vejam com os vossos olhos…

 

Cartões amorosos I 6 de Fevereiro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 2:39 pm

1ª sugestão de postal para se oferecer em dia de amor…
Coração suspenso da Jacky…

 

Cartões amorosos 3 de Fevereiro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 11:58 am

Daqui a dias, lá vem mais uma data consumista: o dia dos namorados, mas não tem que ser sempre assim. Porque não fazermos os próprios postais com um poema de amor? É bonito e cheio de significado, porque o que importa é o amor com que se dá! Esta tarde, vou tirar ideias para fazer para a semana com os meus alunos. Depois publico aqui os resultados.

E tu, tens ideias para fazer algo especial à pessoa que amas? Pode até ser hoje!

 

Carta a uma amiga apaixonada 5 de Janeiro de 2006

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 11:00 am

Amiga,Fico feliz por te ver nesse estado de felicidade total em que te encontras agora. Andas mais leve, como que a flutuar nas nuvens. Quando vejo esse teu sorriso beato, lembro-me daquela cena do filme Bambi, quando chega a Primavera e todos se apaixonam: o Flor, o Tambor e o Bambi.

Não há dúvida que não há altura mais simultaneamente feliz e imbecil que uma paixão nascente. Fica-se com aquele ar apalermado de, aconteça o que acontecer, o amor é lindo e o mundo é cor-de-rosa! Fica-se melado, dizem-se baboseiras ao ouvido de quem se ama. Tem-se vontade de cantarolar todas as canções de amor e de dançar ao som de todos os ritmos alegres.

Já não te via assim desde os teus 13 anos, desde o teu primeiro amor! Depois disso, nunca mais amaste com essa intensidade, mas queimaste as asas por amor muitas vezes. De desilusão em desilusão, foste-te fechando sobre ti própria. Criaste na tua mente um estereotipo de homem que te convinha, intelectual, homem de letras, com sentido de humor, mas desligado. Dessa forma, não havia entrega da tua parte.

Quando pensavas que irias viver independente-afectiva para o resto dos teus dias, surge ele na tua vida. Não lhe prestaste muita atenção por não se enquadrar no teu estereotipo. Ele foi-se insinuando em ti aos bocadinhos sem dares por ela. Habituaste-te a ele. Só quando começaste a ficar enciumada e com medo de o perder é que reconheceste a ti própria a falta que ele te fazia. Mesmo assim, continuaste a fazer vista grossa e ouvidos moucos ao teu coração.

Só não conseguiste resistir ao seu olhar de amante apaixonado e ao seu abraço envolvente. Caíram finalmente as defesas. Se tu soubesses como eu estou contente por ti, Amiga, por dares finalmente uma oportunidade a viveres o amor em plenitude. Tenho a certeza que vai correr tudo bem. Esquece o que vos afasta e as dificuldades que esse amor poderá encontrar e vive! Saboreia todos esses pequenos momentos! Ama com todas as tuas forças! O futuro logo se vê. Afinal, é só uma construção da mente e não vale a pena criar cenários negros, se o futuro não existe…

Um beijinho e mantém esse sorriso beato!

Jacky

 

Carta 24 de Dezembro de 2005

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 11:29 pm


John PetoAs pessoas são como cartas. Algumas aparecem na caixa do correio com envelopes vistosos e são apenas publicidade enganosa. Outras em envelopes amarelecidos pelo tempo e trazem lindas recordações. Certas pessoas são ainda como bilhetes postais e transmitem-nos sempre a alegria do Verão. Outras ainda são entregues à mão em envelopes discretos e trazem as mais belas cartas de amorizade. E há amigos que são postais de Natal, sempre presentes!

Obrigada amoramigos, obrigada por nunca me deixarem sozinha :)

 

carta a um amigo com muitos medos 20 de Dezembro de 2005

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 6:40 pm

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Amigo,A tua vida pacata sofreu uma mudança repentina e ficaste assustado. É normal, sabes, o amor nem sempre chega de mansinho, nem sempre floresce de uma grande amizade. Às vezes, chega em forma de furacão e arrebata tudo pelo caminho. Deixa-nos maravilhados com a sua beleza assustadora e também ficamos perdidos porque já não reconhecemos a nossa paisagem emocional.

As dúvidas assaltam-nos: será que vai dar certo? Será que estamos ao mesmo nível? Será que as personalidades combinam? Os medos também chegam sorrateiros e dizem: será que caminhamos para o sofrimento? Será que vai durar mais que uns dias ou meses? Será que nos quer realmente e não nos vai abandonar e trair daqui a nada?

Ao mesmo tempo, ficamos como que obsessivamente a pensar no outro. Onde estará agora? Será que estará a pensar em nós? Quem são esses outros que andam à sua volta? Serão ameaça a um desabrochar desta paixão nascente? Os pensamentos caem como flocos de neve e formam bolas que rebolam pelas falésias da mente, formando avalanches que nos submergem.

Queremos o outro mais que tudo e não queremos. Precisamos do outro para sermos felizes e precisamos de estarmos sós para pensar… incansavelmente no outro. Ficamos dependentes a este sentimento e desejamos a liberdade perdida. Sentimo-nos divididos em dois e não conseguimos escolher. Somos marionetes inúteis, manipuladas pela paixão.

Bem sei como te sentes, assim perdido entre escolhas, dúvidas, medos e sonhos. Sei que precisas de ultrapassar certas mágoas passadas e de te projectares no futuro. Mas, não percas demasiado tempo a viver em tempos longínquos passados e futuros. Aprende a apreciar os pequenos prazeres da vida, as oportunidades felizes que surgem, as coincidências que só acontecem uma vez na vida, os presentes do presente.

Não procures mais sinais. Os sinais estão dentro de ti. Basta estares atento. Não fiques parado assim. Sente o momento. Dá uma oportunidade a ti mesmo. Deixa o amor revelar-se. Se for verdadeiro, não morrerá. Se não for, pelo menos, não te poderás arrepender de não ter tentado.

Amore captus, carpe diem, carpe noctem…

jacky

(20.12.2005)

 

Carta a uma amiga desalentada 20 de Dezembro de 2005

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 3:56 pm

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Amiga,Gostava de te poder dizer que vais ficar bem porque o tempo tudo cicatriza, mas sei que de pouco serve. Perder um sonho de amor só pode conduzir a um grande desalento. Fica-se assim de cabeça baixa, braços caídos, sentada no chão, com vontade de entrar na terra e ficar no seu ventre até curar esse mal de amor.

Gostava de te poder dizer que ficar à espera duma palavra, escrever-lhe palavras de amor e continuar na expectativa não serve de nada, mas sei que não adianta muito. Sei que precisas de expressar ainda o que sentes, de enterrar o passado, escrevendo o luto desse futuro abortado. Sei que sofres, mas se silenciasses, sofrerias muito mais…

Só te posso dizer uma coisa, Amiga. Vive o momento. Não fiques estacionada no passado. Nem te morras por um futuro que não aconteceu. O futuro não existe na realidade. É apenas uma projecção da nossa mente. Só existe o presente e tem que ser vivido. Por isso, aproveita cada bocadinho que o presente te oferece e renuncia a esse sonho que já se esfumou.

Já sabes, Amiga, se precisares de mim, estou por aqui.

Um beijinho de amorizade

Jacky
(20.12.2005)

 

Carta ao Pai Natal 21 de Outubro de 2005

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 12:30 pm

Querido Pai Natal,Esta semana, andava por aqui a passear e vi que a Hipatia já te escreveu uma cartinha a pedir o Gérard Butler como prenda de Natal. Foi com antecedência porque, o ano passado, o seu pedido não foi concedido, talvez pelo envio tardio da carta…

Por isso, como sou uma menina ajuizada que se porta bem e até tirou fotografias para todos os blogues colectivos que já surgiram. Não exterminei o amorizade como prometido. Não tenho insultado os palermas que andam na estrada com cartas tiradas em pacotes de batatas fritas. E juro que não tenho abusado nos chocolates nem nos gelados (talvez só em Julho e Agosto, um bocadinho).. Não tenho distorcido a língua a escrever naum em vez de não, nem kuando em vez de quando, nem em sms! Levo o cão à rua todos os dias e separo o lixo todinho.

Pai Natal, não queria que me trouxesses ninguém em especial. Queria APENAS um homem simples: que tivesse o sentido de humor do Robin Williams, a classe do Colin Firth, os olhos meigos do Rodrigo Santoro, a poesia de Luis de Camões, o carisma do Richard Gere, a maturidade do Sean Connery, o sorriso de cãozinho abandonado do Hugh Grant, o corpo do Christian Bale, a voz de embalar do Damien Rice, a psicologia do Jacques Salomé e a inteligência do António Damásio… E ainda que saiba fazer óptimas massagens e que goste de me pentear o cabelo, que seja quente para me aquecer os pés no Inverno e que também tenha jeito para outros trabalhos manuais caseiros. Penso que não me esqueci de nada, Pai Natal (também se me tiver esquecido, rectificam-se os pormenores no próximo ano).

E pronto (nem digo prontus nem nada), como me portei bem, acho que mereço ter o presente que te pedi no próximo Natal.

Um abraço de amorizade

jacky

P.S. A Sunrise sugeriu ainda isto: cu do Mel Gibson, charme do George Clooney, irreverência do James Dean, loucura do Brad Pitt, e que use kilt de vez em quando. Esquecimento imperdoável meu! Pode ser?

 

Carta a uma filha que desejou não ter nascido 24 de Agosto de 2005

Arquivado como: cartas da jacky — jacky @ 8:11 pm

Sabes,
é verdade que os teus pais não são felizes, mas a culpa não é tua. Dizem-te que se não fosse por ti, que teriam seguido outros rumos.
É verdade que se não tivesses nascido, eles já não estariam juntos neste momento, mas acreditas que seriam mais felizes sem ti?
Foste, és e serás uma das maiores alegrias dos teus pais. És o tesouro mais precioso que eles têm.
Se não tivesses nascido, se calhar, por esta altura, ainda seriam mais infelizes porque completamente sós. Deste-lhes um sentido para esta passagem que é a vida.
Não nasceste por acaso. Nasceste porque eles precisavam de ti, nunca te esqueças disso…

Um beijinho