Amorizade

Amor + Amizade – Termo de Luandino Vieira

Obra… 04/05/2006

Arquivado em: contos da jacky, emoções — jacky @ 12:33 pm

Ela não estava nos seus dias ultimamente. Pensando bem, ultimamente era um período de tempo bastante longo. Sentia uma certa melancolia da qual não se conseguia desprender. Ficava assim a pensar nos dias de ontem em que tinha sido feliz. Ficava também a pensar naqueles sonhos de adolescente em que idealizava o mundo e as pessoas, nos projectos de futuro que agora sabia não ter concretizado.

De uma certa forma, achava que tinha falhado como pessoa, que não estava à altura do seu próprio «eu» de quando tinha 15 anos. Então, refugiava-se nessas canções antigas dos anos 80, nos livros que tinha lido na sua infância, nas fotografias em que era linda e não sabia…

Estava numa profunda crise existencial já há muitos anos porque não tinha ambição suficiente para concretizar os seus sonhos. Adorava ser mãe e por isso dedicava todo o seu tempo aos filhos e a vê-los crescer. Dava-lhes o que a maioria das pessoas não dava aos filhos: tempo, atenção, disponibilidade efectiva e afectiva, mesmo que para isso fosse possível tivesse prescindido de si.

Os pais às vezes olhavam-na de lado, como que à espera que ela saísse dessa «vidinha» sem qualquer glória. Quando morresse, não haveria nenhuma rua com o seu nome nem nenhum livro em alguma prateleira escrito por ela. Não ficaria nada que a ligasse à posteridade.

Era pena, na verdade, que todos a fizessem sentir assim inútil, sem memória, mas era a sociedade do momento: ligada à projecção efémera do «eu», ao consumismo e ao narcisismo desmedido. Ela podia não ser a mulher realizada a nível profissional, a melhor em todas as vertentes, era sim uma constructora de afectos, talvez a obra mais perfeita da humanidade…

 

7 Responses to “Obra…”

  1. Insueto Says:

    Bem… todos os dias uma imagem nova!!! Fantástico!

  2. wind Says:

    Sinceramente não sei que escrever aqui, porque não sou mãe, mas acho sinceramente que ser mãe a tempo inteiro é muito vazio.

  3. josé gomes Says:

    Não conhecia esta tua casa.
    De composição simples e vistas agradáveis…
    Parabéns.
    Um abraço

  4. Zita Says:

    Os filhos sao parte de nós e como tal merecem todo o amor e afecto que lhes possamos dispensar. Nao pediram para nascer e por isso somos responsaveis por eles até ao fim. A nossa dedicaçao é constante e um dia será retribuida com gestos simples de afecto. Quando estamos sozinhas perante as dificuldades do crescimento de uma criança sentimos muitas vezes o vazio e o medo. Esses momentos sao passageiros e a cada acordar novas forças teremos.

  5. Alexandre Says:

    Ser constructora de afectos deixa obra inesquecível na memória de familiares e amigos. Haverá algo mais importante que deixarmos uma obra adoptada e continuada por pessoas que acreditaram em nós e na diferença que fizemos nas suas vidas, e nos recordam com respeito?

  6. MC Says:

    Penso que em relação ao Amor, a Dedicação, a Atenção, a Preocupação etc etc para com os filhos nunca é demais, todo o tempo é pouco, cada momento vivido com eles é unico, cada bocado que se dá de nós a eles nunca será um tempo dado como desprediçado ou como não produtivo, cada momento e cada bocado que lhe damos são como sementes que um dia mais tarde a maneira de cada um deles as tornarão grandes pessoas, seremos recordados com Alegria e Amor e só aí teremos então na Saudade a Lembrança de cada momento e de cada bocadinho em que nos demos e dedicamos a eles.

  7. jacky Says:

    Nesta estória, a mãe de que se fala não tem que ser mãe a tempo inteiro, pode até trabalhar em part-time. O problema é que, hoje em dia, as mulheres que gostam de ser mães são completamente desvalorizadas pela sociedade. São apenas Mulheres com M as que têm carreira, que cultivam o corpo e a aparência, que fazem milhentas coisas ao mesmo tempo. Uma mulher que prefira estar com os filhos do que sr fulana de tal é sempre apaontada a dedo.
    Esta estória era apenas para dar um certo incentivo às mulheres que gostam de serem mães e não são compreendidas.

    Muitos beijinhos (e agora fica este template, pelo menos, durante uns dias)
    Para ti Insueto, wind, josé gomes, zita, alexandre, MC


Leave a Reply